Thursday, 4 August 2011

Caminhos

O menino saiu pelo portão principal da escola, em meio a um alvoroço de crianças correndo a encontrar seus pais e em berros pela felicidade de um Natal próximo, ele calmamente caminha em seu uniforme, mochila pendurada no ombro, cabeça cabisbaixa, sentindo as pedras debaixo de seu tênis gasto, pára, olha uma vez mais para trás, o pátio agora vazio, professoras com lágrimas no olhos nas portas das classes, um inspetor de alunos alto, magro, escondido atrás de seus óculos mostrava uma tristeza indefesa, o diretor em frente a secretaría mantinha um ar sério porém sem convencer pelo histórico de semi-embreaguez diário, brincava com seu bigode enrolando as pontas como aquele personagem mau do desenho animado.

Mesmo depois de tantos momentos difíceis naquele lugar, diferenças sociais, bullying, falta de entendimento, angústia e dificuldades, o menino se volta com tristeza, continua em direção ao portão, deixando para trás aquele lugar para nunca mais voltar.

Ele passa pelo portão, toca o muro por uma vez mais, como que deixando parte de sua alma enterrada ali, levanta a cabeça e a vê, indo já ao longe, entre outras crianças era fácil distinguir seus cabelos dourados ao vento e reluzindo o sol, seguia em seu sorriso que por dias parecia pura energia do céu, em que outros, pura demonstração de sua geniosidade. Foi a última vez em que ele viu a menina mais bonita daquela escola, o ano letivo acabara, cada um dos alunos seguiria para um novo lugar e amizades ficariam no passado, saudades ficariam no esquecimento, velhas amizades seriam substituídas por novas e cada qual teria um rumo diferente em sua vida.

Os dias passaram devagar naquele final de ano, e um livro achado numa estante empoeirada foi um dos melhores amigos do menino naqueles tempos difíceis, talvez pela semelhança do personagem, alguém também jovem, um pequeno pastor das terras espanholas na Andaluzia, que teve em um de seus sonhos a visão de um tesouro enterrado, numa terra longíqua, distante de seu lar, sua família e amigos. O pastorzinho então embarcou numa jornada de aventuras que tomou grande parte de sua vida e onde teve encontros com personagens que definiram não só seu caráter, mas grande parte de quem o homem se tornou no final.

A história dos dois, a literal e a do menino recém saído da escola se confundem depois de alguns anos, ele, o menino, também teve sonhos, promessas de aventuras, como uma força inexplicável que indicava também um caminho, uma jornada nada fácil, longa e árdua, até um destino onde seria recompensado afinal.
O menino atravessou mares, florestas, montanhas, vulcões, por terra, água e ar, nada o parou, nada o saciava, o sonho se tornou uma obsessão assim como no livro, a busca era o alimento de sua vida, sentia como se aquele tesouro fosse parte da sua alma dividida em outra época da história do mundo e que nesse momento precisaria reencontrar para justificar sua essência.

Os sinais que encontrara depois de anos em sua jornada começaram a confundi-lo, diferente do livro, nada parecia fazer sentido, ja havia conquistado o mundo e mesmo assim sua sede o impedia de encontrar a paz que imaginava ser o final de contas, nada mais o satisfazia e a volta pra casa era iminente, já nao restava muito mais a fazer, havia perdido grande parte de sua fé.

Vinte anos haviam se passado, o menino que um dia saiu daquele portão em direção ao mundo, resolveu voltar, já homem, para o lugar de onde veio. Mas antes, precisaria atravessar todo o mundo novamente, e em uma de suas últimas noites numa terra do sol nascente, em um navio em meio ao mar, meio acordado, meio adormecido, entre o balanço das ondas e a escuridão de um céu iluminado de longe por estrelas, teve um último sonho, algo que deixou em seu coração uma exatidão de sentimentos, como uma bússola, que o deu a certeza de estar em seu caminho novamente, certo e seguro, como seguir seu norte até seu porto seguro, pois era lá que se encontrava de verdade seu tesouro, o dourado da visão que tivera no início de sua jornada não era ouro, era o cabelo daquela menina de sua infância, a luz do sol na terra, a chama clara de um fogo que não se extingue.

Diz a gente toda por aí que fala-nos dos sonhos possíveis, não impossíveis, de como afinal aquilo que procuras está sempre mais perto do que pensas, e o menino, já homem, acreditou.

... e como disse aquela antiga história no livro à vinte anos atrás,

"O seu coração está onde está o seu tesouro. E seu tesouro precisa ser encontrado, para que tudo possa fazer sentido."

Sunday, 26 June 2011

Winter memories

Ela: "- Fala inglês ? "
Eu: "- Sim, você ? "
Ela: "- Nasci aqui. "
Eu: "- Faz sentido... "

Ela esfrega os olhos vermelhos, ajeita o cabelo, endireita a coluna, abre um sorriso e pergunta:

"- Você não é mais um daqueles que entram em nossas vidas, pra passar uma noite em nossas camas e depois sumir, é ? "
"- Não... "
"- Ótimo ! " disse ela.

... a noite voou, e no final estava apaixonado.

Ela pediu mais uma vodka com coca-cola, ajeitou o cabelo novamente, disse que iria para o banheiro, 
" - Espera cinco minutos e me encontra lá dentro ..."
Naquela noite pensei ter achado a resposta para as minhas perguntas, aqueles olhos azuis eram o infinito universo em que eu poderia me perder por toda a vida. Minha rotina sumiu, alguns dias era acordado por um abraço mais apertado, outros por um beijo à queima roupa e quando era meu despertador em pleno rock & roll, sabia que estava sozinho e não era um sentimento bom.

Bom era acordar num sábado e ver ela com uma cesta de frutas arrumada, dois livros roubados da minha estante separados e aquele baton vermelho contrastando com seu chapéu e óculos de sol retrô. O dia deitado no parque ao sol passava muito rápido, e de repente ela me surprendia tirando uma garrafa de vinho de sua sacola de pano pintada à mão.

Ficávamos pelo final de tarde jogados por cima um do outro, até onde o calor do vinho já não nos esquentava mais e o sereno da noite nos impedia de continuar nossas discussões literárias, juntávamos nossas coisas e tomávamos o rumo inebriante pelo parque até o ponto de ônibus mais próximo,  nossa jornada era feita de risadas bobas, danças mal coreografadas e eu pedindo desculpas aos passageiros do ônibus pelo disturbio da paz.

Aos sábados passávamos à noite fazendo planos, contando histórias de nossa juventude, nos intervalos fazíamos amor, quando menos esperava, o brilho do sol por entre a cortina me lembrava que era hora de trabalhar, domingo cedo, tarefa quase impossível, saía de casa rastejando de cansaço da noite não dormida.

A rotina do domingo era sempre a mesma, vizinhos de ressaca se misturavam aos clientes antigos com suas famílias pelas mesas do pub. O gerente gritava ordens para o 2o andar onde ficava a cozinha, e minha cabeça parecia querer explodir. Até que às 11 da manhã de um dia tipicamente Londrino, frio, mas ensolarado, lá estava ela em minha porta com uma caneca de capuccino em sua mão, à extendeu com sua mão branca como a neve que teimava em deixar seus flocos na janela.

Depois daquela manhã não só viciei no café diário, mas no sorriso por trás daquele baton vermelho, no azul dos olhos por trás daqueles óculos retrô, do cheiro por baixo daqueles cabelos negros e naquela pele branca escondida por entre seu vestido de seda florido.

Um inverno foi compartilhado debaixo de edredons e chocolate quente à base de creme de whisky com Baileys, cantávamos um para o outro em frente à lareira velha esquecida no canto da sala, discos de vinil davam o tom retrô que ela tanto gostava, jogávamos cartas com regras que ela inventava na hora, escrevíamos poesia em papéis que depois eram jogados no fogo da lareira, dizia ela que as palavras eram muito perigosas para serem criadas e libertas ao mundo, e com as faíscas do fogo víamos frases formadas subirem pela chaminé, rumo ao céu escuro e frio.

E com o tempo percebemos que não se pode ter tudo, que os sonhos quando prontos se tornam uma utopia, algo que não conseguimos apalpar, que erramos ao deixar a poesia voar, que as palavras ao mesmo tempo que perigosas, servem como o alimento de uma relação, e que no torpor de tudo aquilo, escolhemos deixar o tudo de lado e seguir com nossas vidas na forma simples, pois o tudo é complicado demais. Somos como um grão de areia no universo do entendimento, querendo burlar as leis naturais pintando um quadro perfeito, que no final se torna um espelho, quebrado, com frases escritas em batom vermelho, separadas pelas rachaduras da vida.

e em minha vida, sobrou o capuccino que aquece meus lábios nas manhãs frias, para lembrar que o ter tudo é possível, desde que se tenha coragem de enfrentar.








Saturday, 11 June 2011

Love hurts

Em meio aquela chuva ela continuava a correr, como se tentando escapar de seu destino que vinha logo atrás, seus cabelos negros escorriam como seda por sua pele branca como leite, seus olhos marejados brilhavam como o azul do oceano em dia de sol, o verão tinha apenas começado.

Ele havia esquecido a chave dentro do carro e quando bateu a porta se deu conta do terrível engano, se perguntava por quê essas coisas acontecem sempre na pior hora, iria se atrasar para a entrevista, já não era suficiente estar desempregado à algum tempo, tinha também de ter má sorte nos momentos cruciais para completar o quadro.

Ao atravessar o parque correndo para pegar o ônibus, escorrega em uma poça d'água e seu sonho de uma carreira brilhante é arruinado naquele instante, já não lembra seu nome ou em que mês está, tamanha sua dôr.
Ao ver aquele engravatado correndo em sua direção com ar de preocupado, ela se esquece por alguns segundos de seus próprios problemas, ele aparenta ter um peso muito maior em seus ombros, até o segundo seguinte onde ele vai para o chão como que desafiando a lei da gravidade e então ela percebe que o dia dele começou bem pior do que o dela, e isso a deixa desconfortável, naquela manhã ela queria que o céu desabasse por sobre sua cabeça, não sobre a de um pobre desconhecido qualquer.

Ao abrir os olhos e se deparar com o oceano a encará-lo, pergunta: "quanto tempo você levou até aqui?"
Ela sem entender pergunta em resposta:"como assim?"
-"você não veio do céu pra me buscar? Você não é um anjo? OK, essa é das antigas, mas com a dôr que eu estou sentindo não consigo pensar em nada melhor..."
E aquele sorriso inesperado salvou não só o dia de ambos, mas também aquele verão.
Terminaram o dia em um café, não perceberam que foram longas horas conversando com uma única pausa em que ele ligou para sua entrevista com uma boa desculpa, ao que responde do outro lado da linha de que a reunião era mera formalidade, o emprego já era dele.

Passaram aquele outono construindo sua vida num álbum de fotos que mais tarde transformou-se em um castelo de cartas, ficaram ali fotos dos buquês de flôres aos sábados de manhã, jantares surpresa à luz de velas e domingos preguiçosos a beira da cama.

Naquelas fotos estavam promessas escondidas de filhos para montar um time de futebol ou uma companhia de ballet, férias aos 40 anos em lugares exóticos, cafés à beira do Sena aos 50 e degustação de livros na varanda debaixo do cobertor aos 60.

Se tornaram vicio um do outro, cada instante longe era insuportável, a voz no telefone já não acalmava aquela fome.

Certo dia a beira da cama ele confessa seu sonho de viver sua velhice no campo, casa simples, vastos pastos gramados com animais e um lago, ela por sua vez tem em mente aquele apartamento no centro próximo daquele restaurante e de seu teatro preferido, sem se esquecer do parque para suas longas caminhadas no final de tarde.

Sem ao menos perceberem, assim se foi, eram duas pessoas que se tornaram uma só e essa pessoa foi envenenada pelo tempo que a partiu em pedaços e que não rimavam.

As flores de bom dia se transformaram em recados na geladeira, no lugar dos poemas ficaram as contas de luz e telefone colados no calendário, e a data daquele dia no parque, que era marcada em vermelho, já não tem sido comemorada nos últimos anos, lembrava os sempre daquele jantar em que ele atrasou e ela não sorriu, dividiram a garrafa de vinho e discutiram amenidades, no final da noite a data caiu no esquecimento assim como a paixão que os mantinha acordados noite afora no passado.

Em um dia dos namorados cinzento, chovia e ele precisava ir ao escritório resolver alguns últimos detalhes de um projeto, acordou, olhou do lado e ela dormia calmamente. Sua vontade era dar lhe um beijo de bom dia, pedir perdão pelos últimos anos apáticos em que trocaram as prioridades. Mas também pensou que depois de tanto tempo poderia soar hipócrita numa data comemorativa.

Vestiu algo confortável e casual, pegou sua mochila e saiu pela porta sem fazer barulho.

Ela então abriu os olhos, deixou escorrer uma lágrima, e pensava o por quê havia fingido estar ainda dormindo ao invés de pedir lhe que ficasse mais um pouco na cama, que sorrisem um ao outro, deixando as histórias serem contadas e lembradas por suas pupilas, e que em um beijo tudo fosse resolvido, e que aquele gesto fosse o antídoto para o veneno que o tempo injetou naquela relação.

No caminho para o trabalho, resolveu fazer um atalho e passar em frente ao parque onde à alguns anos tinham se conhecido, primeiro passou no mesmo café em que tiveram seu primeiro encontro, pediu um capuccino para viagem, estacionou o carro próximo aquele ponto onde havia caído e ela havia o ajudado à se levantar, sentou se em um dos bancos e ficou vendo o tempo passar.

Notou um menino chorando com um filhote de labrador em seu colo, o cãozinho teimava em lamber suas lágrimas, e ele conversava se desculpando por alguma razão. Esqueceu seus problemas por um instante e perguntou ao garoto se estava tudo bem, ele o disse que o filhote foi achado abandonado e queria ficar com ele, porém os pais não queriam um cachorro dentro de seu apartamento.

Perguntou ao menino se ficaria menos triste se o cãozinho tivesse um lar em que ele pudesse visitá-lo, ao que concordou prontamente e com um sorriso entregou o filhote.

Desistiu de ir trabalhar, nada era tão urgente que reconquistar o amor que perdera naqueles anos cruéis. Passou em uma floricultura, comprou rosas vermelhas, uma caixa de chocolates no mercado ao lado, alguns pães frescos para o café da manhã e voltou para sua casa. Ela continuava na cama, com os olhos inchados das lágrimas derramadas, ele abriu a porta com um buquê em seus braços, e o filhote correu por entre suas pernas para então pular em cima da cama, pronto à lamber mais lágrimas de um mundo em que quase nada conhecia.

Em silêncio passaram a manhã com suas xícaras de café, observando o novo morador destruir alguns cobertores, rasgar algumas almofadas, e trazer vida para aquele lugar onde à muito vivia em tristeza. Sem terem trocado sequer uma palavra, tudo havia voltado como no primeiro instante em que se conheceram. O silêncio foi quebrado com a notícia de que estavam à espera de seu primeiro filho, e aquele amor que parecia ter secado como uma árvore antiga dos sertões, de repente floresceu como um jardim na primavera.

... e viveram felizes para sempre.


Thursday, 2 June 2011

Em busca do sem fim

Por que precisamos de tragédia, do drama, de histórias em nossas vidas, tudo desde o comeco parece tao mais bonito quando contado em formato literal. 

Um dia a muitos e muitos anos atrás estava sentado sozinho embaixo de uma árvore espacosa, descalco, bermuda velha e camiseta furada, ao lado minha blusa de moleton com as mangas amarradas, formando uma especie de sacola onde eu guardava as frutas roubadas nos sitios vizinhos, onde ate os caes de guarda eram meus amigos. 

Na verdade eram eles preguicosos, daqueles que assim como os mexicanos, fazem a hora da ciesta, e nessa hora em que eu pulava as porteiras alheias, eles apenas levantavam as orelhas, olhavam de forma brejeira e ali me deixava quieto em meu delito.

Subia o morro e ficava la de cima vendo o tempo passar, escutava o silencio, sentia uma forca em ver a vila la embaixo, mansa, nao quieta, mas tambem sem algazarra de cidade grande, compadres passavam pelas ruas baixando os seus chapeus em respeito um ao outro, comadres ficavam pelas esquinas contando seus contos, criancas cacavam seus passarinhos com estilingues ou se esbaldavam pelos bracos de rio ao redor, pequenos exploradores assim como eu.

Acordava assustado sem ter visto o tempo passar, acordava pelo barulho do gado passando ao lado em direcao ao ribeirao no final de tarde, por algumas vezes vinha junto um boiadeiro, daqueles de 15 anos de idade, com pedaco de capim mascando entre os dentes, chapeu de palha batido daqueles que passaram dez anos entre sol e chuva no canavial, botinas gastas e maiores do que seu pé que causavam bolhas imensas.

Nao sabia dia do mes, tampouco da semana. As horas eram contadas pelas batidas do sino da igreja, até entao eu acreditava que era o padre realmente que puxava uma corda e fazia com que o sino badalasse, alguns anos mais tarde descobri que era apenas um auto-falante e uma gravacao rustica que tocava automaticamente dizendo a hora para a vila inteira ouvir. 

Só quem estava lá pode dizer o quanto nos aterrorizou o toque de meia noite e meia, o silencio do interior, a nevoa que envolvia toda a vila por ser povoada ao lado do rio, as historias mais mirabolantes contadas durante o dia vinham a tona nesse horario, e nossas cabecas atormentavam ate o cansaco chegar e fazer com que desmaiassemos em sono profundo, acordando pelas manhas salvadoras de sol e cheiro de café passado.

Lá de cima do morro eu via todo dia ela passar, a menina de bicicleta que vinha pra vila todo dia no mesmo horário, saía pela estrada do meio dos cafezais, imagino morar num sitio pelos arredores, e deveria vir a vila para trazer coisas ou buscar mantimentos, usava sempre a mesma saia rodada branca de rendas sujas nas pontas, tinha os cabelos louros e rebeldes, uma brancura na pele que reluzia luz do sol e de longe se podia ver que sorria ao descer a estrada por detrás do morro, sem freio, sem medo e com o vento como seu amigo.

Imaginava ela cantando enquanto pedalava aquelas estradas poeirentas, devia assobiar belas cancoes, daquelas que tocavam em radio AM que nossas avós sintonizavam pela manha, de vez em quando soltava uma das maos e tentava desajeitadamente arrumar o cabelo, parecia até saber que eu a estava observando dali de cima, e sonhandoem um dia a encontrar, poder dizer um oi e perguntar se poderia a conhecer melhor. 

Nunca aconteceu.

Tenho saído por esse mundo afora sem exito, algumas vezes tentei me enganar entoando discursos de que queria experimentar novas culturas, mas na verdade estive mesmo em busca daquele ser que quero pra ser meu par, da metade da laranja, tampa da panela, alguém pra compartilhar momentos e segredos, alguém pra chamar de minha, e a tarefa cada vez fica mais dificil, pois o mundo esta agora cada vez menor, ao menos em meu mapa. 

A encontrei por diversos lugares, momentos impróprios, horas desacertadas, noites esculhambadas e manhas de ressaca, durante jantares a luz de vela, almocos de domingo na feira, em passeios de maos dadas pelos parques e picnic na sessao da tarde, esse amor eu achei nao por uma, mas por diversas vezes, e ainda tenho a esperanca de que um dia será pra sempre, e que esse sempre será pra qualquer lugar...

Saudade da simplicidade nas tardes debaixo da arvore, onde o amor se resumia em ve-la passar com o vento em sua bicicleta...

Wednesday, 18 May 2011

San Cristobál

Encostado numa árvore à beira de uma rua não pavimentada no bairro de San Cristobál, lá pela Calle 18, travessa da Carrera 7, gasto meu tempo à vê-lo passar. Vejo um bando de meninos chegar em uniforme, muito falantes, sapateando pelas pedras soltas da rua, chutando latas enferrujadas, gritando com as velhas nas janelas, jogando pedras nos cachorros largados e atentando os gatos vadios.

Correm para dentro de suas casas, mais gritos, suas mães tentando os fazer comer algo, televisão falando sozinha num canto da casa, destoando a tarde pacata. Em pouco tempo todos estão de volta, em seus shorts rasgados, camisetas surradas e esburacadas, chinelos de borracha gastos pelas peladas de rua, cada um com um instrumento que me lembrava algo musical.

Buscam pelas latas chutadas e vão formando um círculo, alguns trazem pedaços de madeira velha para se apoiar, outros apenas se deixam largar pelo chão, nem um pouco preocupados pelo córrego a céu aberto que passava numa canaleta improvisada na lateral da rua, como uma sinfonia, cada um faz o preparo de seu instrumento, pequenos violões desafinados, um tambor com couro de cabra, uma gaita surge do bolso de um deles e outro acrescenta algo que não me vem a cabeça o nome, mas que produz algum ruído aquela congregação.

Entre risadas e brincadeiras, tocam sua rumba, tocam suas canções desafinadas e seus hinos infantis, mesmo que em nada se pareça com uma verdadeira música, o efeito sonoro os trás tão bela animação.

Um velho descamba de seus aposentos, acordado de sua ciesta pelo relógio natural da tarde, passa pela cozinha onde a chaleira assobia o café pronto, busca no armário amarrado à parede uma caneca de alumínio com a imagem de Nossa Senhora, acena para sua velha esposa sentada numa cadeira de balanço prendida à seu tricô, e então sai para a rua.

Senta-se numa pedra posta ao lado da parede feita de barro e tijolos velhos, camisa amarrotada, botões a querer pular, calça de um brim bege tanto pela poeira como pela origem, seus pés tinham tantas rachaduras como o árido solo do sertão, seu chinelo feito de um couro curtido já se desfazia como cadáver de algo que já fora vivo um dia, suspira, tira do bolso seus papelotes, um canivete velho sem fio, uma goma de fumo, e começa seu ritual a criar seu momento de paz.

Seu bigode evidenciava o tempo em que fumava, por meus cálculos, mínimo de 40 anos pela mancha amarela naqueles fios brancos envelhecidos, seus olhos gastos pela catarata, num azul marejado e coberto pela névoa branca da idade. Pediu aos meninos que tocassem algo mais apropriado, talvez algo de sua época, algo que o recordasse dos tempos em que era ele ali a buscar por afazeres em sua juventude, do correr descalço pelas vielas esburacadas, à se esconder pelos barracos abandonados, ou pelas lajes proibidas das casas coloridas onde se chegava pendurando-se pela árvore vizinha.

Buscaram nos recônditos de suas memórias algumas canções tocadas por seus avôs e forçaram algumas notas goela abaixo, satisfez o velho com seu cigarro, seu sorriso leve mostrava que já não estava mais ali, estava longe em seu sonho, sonho que continha saias rodadas, comidas picantes, mulheres ardentes, garrafas vazias, tardes na colheita, noites na estrebaria com seu amor às escondidas, farras nos bares da cidade, e uma luz ressaqueada do sol amanhecido.

Um dos meninos chamava pelo velho, pedindo outra canção que pudesse acompanhar, sua resposta era apenas um rosto ligeiramente calmo, olhos fechados tristemente, mas num sorriso tranquilo, seu cigarro jazia pelo chão, seu braço direito caído ao lado do corpo, sua mão esquerda descansada sob a barriga estufada, seu sonho o levara. Se expirou numa tarde de segunda, assim como veio, se foi num piscar dos olhos, atrás das saias rodadas e das garrafas por esvaziar.

Wednesday, 11 May 2011

...y se perdió los ideales

Dos bens e dos males de se viajar, da dor infligida na alma e do prazer enraizado ao coração, eis que o pecado se aflora em vias de contramão, paradas em portos sem âncora onde todos desembarcam, mas só o viajante parte.

Estava em um estabelecimento precário, mas cheio de gente com bom coração.

Uma senhora que buscava o título de respeitada, mas que a cinta-liga por debaixo da saia a condenava, um garoto totalmente fora de contexto pela hora e local buscava pela carteira de um senhor cansado e desatento. O dono do bar limpava o balcão com algo que parecia mais um pano de chão, mantinha seus olhos atentos à um grupo que jogava cartas de forma suspeita, em alguns momentos percebia um movimento sorrateiro por baixo da mesa. Algo parecia não estar certo.

Alguém entra batendo a sola do sapato como que trotando pelo piso, brada algo incompreensível, tira de sua jaqueta surrada um revólver enferrujado e balança pelo ar como um helicóptero desvairado.

Hernan, o dono do bar, belisca a ponta de seu bigode, estica os fios revoltados em busca do penteado perfeito, dá um sorriso que move suas gordas bochechas e teatralmente bota sua mão debaixo do balcão.

O cachorro louco abaixa suas mãos, solta um urro, bufa, enche o peito com seus pulmões cheios de ar, e rapidamente volta pelo mesmo caminho por onde veio.

"- Mais um corno.", resmunga alguém próximo à mim, recostado numa parede suja.
"- Muito normal por aqui."

Noto que era um velho, parecia estar dormindo na última vez que havia checado, babava em seu próprio peito, por entre os botões de sua camisa aberta e amarrotada, cabelos meio longos, grisalhos e oleósos, barba por fazer e garrafa quase por acabar ao seu lado, cigarro pendurado na ponta de seus dedos marcados e com suas unhas sujas.

"- Mi nombre es Lopez, señor. Mucho gusto."
"- Encantado." Respondi sem muita empolgação.
"- Sabes que soy un de los ultimos combatentes de verdad por las FARC ? Cuando teníamos ideales ? Cuando nosotros no eramos criminales ?"

Não sabia se dava risada, se corria o mais rápido para fora dali ou se pedia "un ratito" para armar a câmera e começava uma entrevista completa. Resolvi não abusar da sorte, entre um copo e outro, me embriaguei não só pela névoa etílica, mas pelas histórias de um retirante combatente, tão certo de seus ideais que morreria por eles. Como ele me disse, Deus não o deixou ir assim, fez com que sobrevivesse para que pudesse ver a queda de seus heróis, a corrupção de seus companheiros e a tomada da sujeira no lugar de seus hinos criados debaixo de chuva pelas selvas Colombianas.

À mim, não me cabe julgar.

Era ele realmente um sonhador com farta imaginação, ou era ele um autêntico Che Guevara Colombiano, difícil dizer. Foi um bom entretenimento para a primeira de muitas noites por essas bandas. Aquele homem cansado de repente mostrava tanta energia que era difícil pará-lo, se escondia por entre as mesas, fazia gestos como que portando metralhadoras entre a densa selva, mostrava como se feriu por tantas vezes e já estava no final não só de sua bebida mas também de sua sanidade, derrubou-se pela mesa em choro quieto, dizia algo como não ter tido sua família, da dor em ter deixado seus pais e irmãos na juventude e ter ido lutar por eles lá longe, da volta à sua casa após anos e encontrar metade daqueles que havia deixado no passado, e os que sobraram já não se lembravam mais daquele lutador, tampouco lembravam eles de seus ideais.

... o outro lado do ideal, reflexão pessoal:

A mensagem implícita da guerrilha e de todos os conquistadores é o reconhecimento de uma hierarquia pela força, a escravização do povo e tomada de sua vontade pela mesma. Quando não se deixa a população escolher por uma forma de vida, por um lugar, um trabalho e seus hábitos, já estão escravizados.
Não é que as guerrilhas terminavam escravizando toda a gente, ao menos não era o que se propunha desde o início, escravizar a gente era o outro "ideal".

Roubá-la e escravizá-la. Aqui é onde se encontra o que é realmente a guerrilha: uma constante da história humana. Todos os impérios cresceram roubando e escravizando. Porém sobre tudo o que existe, há uma constante da história latino-americana:
Os conquistadores vieram a roubar e escravizar. Os mesmos sequestros se praticaram nos primeiros anos da Conquista. Não ?

Todos os revolucionários obedecem a essa mentalidade dos guerreiros e reproduzem um fenômeno tradicional. O que acontece hoje em dia é apenas uma corrupção da linguagem. Não se diz mais "roubar", se diz "desapropriar", não se diz mais "escravizar" e sim "liberar", não se diz mais "sequestrar" e sim "deter", porém a essa mentalidade de guerreiros se soma a ideologia herdada dos Espanhóis na época da Conquista.

Os ideais se perderam durante os anos, a força jovem daquela banda se corrompeu e usou o discurso antigo para promover sua vida capitalista, aquela mesma vida que antes julgavam errada, se tornaram fiéis à Marx, mas ainda condenando os Marxistas.

Enquanto isso alguns se pegam à sonhar pelos bares socialistas.

Tuesday, 5 April 2011

Do passado ao futuro num piscar de olhos

Concentrado em frente ao meu laptop, trabalhando e buscando soluções práticas para problemas banais, um rádio no canto da sala começa a tocar uma música que esteve presente em meus dias nos meados de 2005.

Melhor do que o DeLorean do De Volta para o Futuro, fui transportado imediatamente para o passado, fechei os olhos e senti o ar gélido daquela primavera, a fragrância de meu próprio perfume da época me vem fácil, as imagens de meu dia-a-dia chegam aos meus olhos, projeto em minha frente o ambiente do escritório, minha mesa rigidamente organizada, uma pequena escultura trazida do Peru ali na decoração, um quadro com a visão e missão da empresa alinhado com o monitor de meu computador e logo ao lado do telefone um porta-retrato com a foto de nós dois, foto que de tempos em tempos trocava por uma mais atual ou meramente para mudar a paisagem.

A música continua a tocar, não só no rádio como em meu pensamento, música que eu colocava pra ouvir quando pegava estrada em direção à casa dela, música que colocava pra me acalmar em dias estressantes, música que eu ouvia quando trabalhava nos finais de semana longe dela, a mesma música que tocava no meu carro ao voltar da faculdade depois de um exame final.

"You got a fast car
I want a ticket to anywhere
Maybe we make a deal
Maybe together we can get somewhere"

Soava como se ela cantasse em meus ouvidos e sim, eu tinha um "fast car", eu poderia dar à ela um ticket to anywhere, e talvez nós pudessemos ir pra algum lugar, mas não foi assim que aconteceu, ambos fomos pra algum lugar, mas o destino não ajudou que fossemos para o mesmo lugar.

O tempo se esvai entre nossos dedos como grãos de areia, escorregando de nossas mãos, os anos passam e as memórias ficam, até um novo ciclo recomeçar e como num filme clássico repetido das tardes de domingo, tudo segue o mesmo rumo novamente, o ambiente do escritório, a tela do computador, mesa impecávelmente organizada, e o telefone ali no canto, porém sem um porta-retratos para me recordar de boas lembranças.


"Anyplace is better
Starting from zero got nothing to lose
Maybe we'll make something
But me myself I got nothing to prove"



Hora de um novo recomeço, sem nada à perder em todos os sentidos, e como diz a música no rádio, "eu mesmo não tenho nada à provar", então que assim seja.