Thursday, 31 March 2011

Loy Krathong, Thailand


"November full moon shines,
Loy Krathong, Loy Krathong,
And the water's high in
the river and local klong,
Loy Loy Krathong,
Loy Loy Krathong,
Loy Krathong is here
and everybody's full of cheer,
We're together at the klong,
Each one with his krathong,

As we push away we pray, We can see a better day. "
This is a translation of the song sung by Thai people to celebrate Loy Krathong.

Loy Krathong is basically a Thai festival that happens all over the country. In Thai, Loy means "to float" and krathong is the name of the little lotus-shaped boats, which are constructed for the occasion. Loy Krathong is held on the evening of the full moon of the 12th month in the lunar calendar. This usually falls in November and I was there when happened in the past year, 2010.

Loy Krathong is long anticipated all over Thailand and especially in Bangkok, thousands of people gather on the banks of the rivers and take boat trips along the canals.

Last year, I was in Ko Samui then I went to a huge lake after dark, just around the place I was staying. The sun had only just set, several hundreds of people had already gathered.

I walked around the area, groups of people had gathered to celebrate together. All the tables and chairs had been set up everywhere, the tables already covered with bottles of Sangsom whiskey, glasses and buckets of ice. All around, stalls were set up selling krathongs in every size and colour, fireworks and toys.

At around 8 pm the whole thing began. I found a place on the river bank and watched in awe as about thousands of krathongs went down the river.

There was a fireworks display during long minutes. Several children were firing tubes with small rockets into the air, shouting and jumping with entusiasm.

Then it was time for me to launch my krathong. I patiently waited my turn at the water's edge, then lit the candle and incense sticks in the center and lightly placed my krathong on the water, making a wish as I did so. Many people believe that their wish will come true if their candle continues burning until the krathong is out of sight. After a couple of months, I can say that my wishes are coming true.

I watched while my krathong drifted into the river and got lost amongst the hundreds of others already floating there. The flickering lights of the candles on the water created a magical atmosphere.

The Loy Krathong festival dates back about 700 years. Coinciding with the end of the rainy season and the rice harvest, it is a way of apologizing for polluting the water. Thai people float a krathong on the water to thank the Goddess of Water, Phra Mae Khongkha. The act of floating away the candle raft symbolises letting go of anger and grudges so that a person can start life afresh.

Another symbol of Loy Krathong are the beautiful lanterns. As I walked around the place, I came across a group of monks holding aloft one of these large paper lanterns and waiting for it to fill with air. When inflated, a candle was placed inside and the lantern was released, rising high into the air to become another flickering point of light.

That experience stayed on my mind and will stuck forever with me, these kind of tradition makes me respect and appreciate all the people from the other side of the world, the oriental culture and their values, even when tragedy strikes hard, they keep on going, praying, helping, singing, with great patience and will. Doesn't matter if it's a tsunami in Thailand, or a volcano exploding in Indonesia, earthquake happening in Japan, flooding in China or the bloodiest war of all times in Vietnam, Laos and Cambodia, nothing can stop them smiling.

We should pay attention and try a little bit harder, as well.

Sunday, 27 March 2011

Sampa

Fácil é colocar letras numa tela em branco, ou num caderno vazio, difícil mesmo é olhar para um muro tosco ou num prédio recém demolido e traduzir aquilo tudo em palavras, ver o cansaço em um rosto e enxergar a indescência por trás daquilo, ouvir o eco da madrugada e resumi-lo num ponto final.

Tiro uma cerveja da geladeira, sigo à passos lentos até a varanda, o conglomerado de apartamentos ao redor suprime o sol e a visão da rua, o silvo do vento por entre o concreto trás lembranças remotas de uma São Paulo de minha infância, onde quando falavam da capital em casa tudo o que me vinha à mente era o congestionamento, o calor intenso, os arranha-céus caindo aos pedaços no centro velho e a sujeira do ser humano transeunte das praças públicas.

Não me contento com aquela visão, meia volta volver e estou em direção à janela da sala, encosto no parapeito, lentamente sigo toda a linha do horizonte, devagar, sem pressa alguma. Fecho os olhos por um instante e estou de volta à janela da cozinha do meu apartamento em Londres, com a sutil diferença em que nessa recordação estou enrolado até o pescoço com meu edredon, caneca de café fervendo em mãos e olhar de nostalgia mirando o branco do lado de fora da casa, toda aquela neve, frio e eu perdido em pensamentos.

Abro os olhos e de volta à São Paulo, copo americano cheio de cerveja com o colarinho espumando, calor infernal e apenas um short daqueles que jogamos "pelada" na rua para cobrir minhas partes, passo a mão pelo meu rosto e lembro que amanhã é dia de trabalhar de novo, preciso fazer a barba e pentear o cabelo. Do alto de minha atual janela vejo varandas e pessoas concentradas em seus afazeres, o doce prazer da vida simples, uma senhora rega suas plantas e imagino sua conversa com as únicas companheiras que tem, com as roupas penduradas no varal logo ao lado posso dizer com precisão que vive sozinha, talvez viúva, talvez divorciada, solitária com certeza.

Alguns prédios à esquerda e dois rapazes conversam fervorosamente em suas camisetas de time, sentados numa daquelas mesas plásticas de boteco, cores e emblemas diferentes, um milagre estarem tão passíveis numa conversa em plena São Paulo de fanáticos futebolísticos, um andar abaixo e um senhor de idade passa um bom tempo entusiasmado com seu jornal e uma caneta em punho, seria um caça-palavras, palavras-cruzadas ou talvez buscando por um emprego nos classificados ? Poderia apresentá-lo à senhora das plantas no prédio vizinho, why not ?

Meus olhos percorrem cada centrímetro à minha frente, vendo tudo mas ao mesmo não prestando atenção à nada, apenas um registro pobre da vida comum. Um casal briga na sacada de seu apartamento, ele aos berros do lado de fora e ela pela janela, visivelmente lavando à louça, retrucando grunhidos e talvez até mágoas reprimidas, é meus caros, vida à dois não é fácil.

Entre prédios posso ver um estacionamento lá atrás, grande, carros de todo tipo estão lá parados no sol, um garoto de bermuda e camiseta cavada passa entre os carros, pára em frente uma Mercedes e com as duas mãos em concha se pôe a observar dentro do carro pelo pára-brisas, busca no bolso de sua bermuda alguma coisa e tira um molho de chaves, entra, o alarme dispara, alguns segundos se passam e então o som estridente do alarme cessa, os faróis se acendem, segundos depois se apagam, o menino então reclina o banco do motorista ao máximo, como se fosse uma cama, bota as mãos atrás da cabeça como se fosse tirar um cochilo e então ouço um forte som vindo dessa direção, samba de raiz ligado no último volume dentro do Mercedes. Estaria o ar-condicionado ligado também ? Espero que o cliente do estacionamento não perceba.

Uma garotinha de aproximadamente 7 anos de idade, cabelos claros e cacheados brinca no play do condomínio lá embaixo, sozinha, se diverte empurrando um balanço vazio, nem o seu ursinho de pelúcia à acompanha nessa hora tão necessária. Penso comigo se o senhor das palavras-cruzadas e a senhora que cuida de suas plantas não fariam um bom trio numa tarde de domingo, deixando assim a palavra solidão longe de meu blog nesse momento, a famosa expressão "sentindo se sozinho no meio da multidão" faz bastante sentido nessa hora.

Faço uma última varredura no horizonte, minha cerveja já acabou à algum tempo, hora de voltar à realidade e tirar minha roupa da máquina de lavar, colocar pra secar e procurar algo não saudável na geladeira para me alimentar, num instante vejo um rapaz no prédio da frente com um binóculo olhando diretamente para minha janela, levanto meu copo como que em uma saudação de bar, ao que ele levanta o braço em um aceno de mão sem tirar o binóculo de seus olhos. Acho que Sampa está sozinha nesta tarde de Domingo.

Tuesday, 22 March 2011

Dicas de viagem do século 17

*1. Faça das viagens uma parte da educação de sua vida;
Viajar, quando se é jovem, faz parte da educação, nos mais velhos, parte da experiência. Ele que viaja para o interior, está frequentando uma escola, antes mesmo de aprender sua língua, e não indo viajar;

2. Mantenha um diário, seja no mar ou por terra;
É estranha essa coisa, das viagens por mar, onde não se tem nada para ver à não ser céu e mar, o homem deve fazer diários; mas viajando por terra, onde existe tanto pra ser observado, a maior parte ele omite, como se as oportunidades para vivenciar o momento sejam melhores que anotar as observações, sendo assim, traga sempre um diário e deixe que tudo seja registrado;

3. Vá em busca de visões interessantes, como:
- Cortes dos Príncipes (especialmente quando ele dão audiência à embaixadores)
- Cortes de Justiça (enquanto eles se sentam e ouvem as causas)
- Igrejas e monastérios (com seus monumentos e obras espetaculares)
- Muros e fortificações das cidades e vilarejos
- Portos, antiguidades e ruínas
- Tesouros, jóias da coroa, robes, gabinetes e raridades
- Navios e embarcações
- Casas e seus jardins, próximas das cidades grandes
- Armamentos, arsenais, armaduras, galerias e galpões

4. Vá em busca de atividades interessantes, como:
- Exercícios de cavalaria, esgrima, treinamento de soldados
- Comédias, como as de anfiteatros a céu aberto
- Livrarias, colégios, disputas e palestras
- Baile de máscaras, banquetes, casamentos, funerais, execuções capitais como enforcamento público e decapitações em praça pública
- Prisões

5. Faça uso de guias de viagem e recursos locais
Deixe o levar consigo livros que descrevem o interior por onde viaja, os quais serão peça importante para suas perguntas e dúvidas. Deixe o também, conforme avança de um lugar para o outro, procurar recomendações com pessoas de qualidade que residem nos lugares por onde passa, que ele use de favores para se mostrar coisas que deseja ver e conhecer ao longo de sua estrada.

6. Procure por experiências variadas, mesmo que esteja num só lugar;
Não o deixe ficar por muito tempo numa só cidade ou vilarejo, mais ou menos o tempo que o lugar merece, mas não muito. Quando estiver numa cidade ou vilarejo, deixe-o se acomodar por alguns dias numa parte da cidade e mais outros em uma acomodação num outro lugar próximo à saída da cidade, só assim o viajante terá conhecido de forma espetacular o lugar e seu povo.

7. Procure por companhia que irá te desafiar;
Sequestre a si mesmo retirando-se da companhia de seus vizinhos, busque por dietas dos diferentes lugares em que passares onde exista boas nações. Cruze também as pontes do capitalismo e seus lucros. Busque conhecer e ser apresentado enquanto viaja para aqueles que podem de certa forma ajudar em seus custos, como secretários e funcionários de embaixadores, pessoas proeminentes e de nomes respeitados pela nação, daqueles que poderão te explicar como é a vida em um nível diferente do qual se vive.

8. Procure evitar viajar com pessoas que causam encrencas;
Para as brigas e encrencas, precisa ser tomadas com cuidado e discrição, geralmente se acontece com amantes, por dinheiro e palavras embriagadas, tome cuidado ao manter companhia com gente colérica e de temperamento, pois esses irão te trazer para dentro de seus problemas.

9. Quando voltar para casa, mantenha suas viagens vivas com um exercício intelectual;
Quando um viajante retorna à sua casa, ele não deve deixar os lugares pelos quais viajou para trás, mas sim manter contato por correspondência com aqueles que conheceu, aqueles que mais vale a pena, e deixe sua viagem aparecer mais em seu discurso do que em seus gestos.

10. Não se gabe de suas experiências de viagem ao retornar para casa;
Em seu discurso, deixe-o contar suas histórias ao invés de perguntar-lhe sobre tudo, deixe-o mostrar de que não mudou seus modos e os trocou pelos modos estrangeiros, tente absorver dele aquilo que ele tenta ensinar que veio aprendendo durante seu caminho nos países e lugares por onde passou.

Sir Francis Bacon   (22 January 1561 – 9 April 1626)
* tradução livre

Monday, 14 March 2011

To Everything There is a Season


To everything there is a season, and a time to every purpose under heaven:

A time to be born, and a time to die;
a time to plant, and a time to pluck up that which is planted;

A time to kill, and a time to heal;
a time to break down, and a time to build up;

A time to weep, and a time to laugh;
a time to mourn, and a time to dance;

A time to cast away stones, and a time to gather stones together;
a time to embrace, and a time to refrain from embracing;

A time to get, and a time to lose;
a time to keep, and a time to cast away;

A time to rend, and a time to sew;
a time to keep silence, and a time to speak;

A time to love, and a time to hate;
a time of war; and a time of peace."

Ecclesiastes 3:1-8

My time now is that of peace...
How about yours ?

Thursday, 3 March 2011

Carnaval sem culpa


"Tanto faz qual é a cor da sua blusa
Tanto faz a roupa que você usa
Faça calor ou faça frio
É sempre carnaval no Brasil"
Titãs, Nem cinco minutos guardados

Por isso e por outras é bom estar no Brasil.

Dizia Tom Jobim (fontes não confiáveis) de que "viver no exterior é bom mas é uma m%$^da, viver no Brasil é uma m%$^da mas é bom."
Sábias palavras meu bom Tom, se é que são suas e não invenção virtual, digo com propriedade que a frase tem um tanto de sentido, morar no exterior seria ótimo sabe como ? Com família, amigos, clima e caipirinha, somados ao bom salário, a certa estabilidade financeira, ao conforto, segurança de andar na rua e certeza de que nem tudo, mas a grande maioria das coisas funciona.

Sem a família lá fora, nós sentimos mais frio do que o inverno pode trazer, sem os amigos é difícil aquela cervejinha depois do expediente, sem o calor não tem como fazer farofa na praia, sem o jeitinho Brasileiro não existe piada nas filas de supermercado, não existe gozação na janela do ônibus, não se forma roda de viola, tampouco bailão sertanejo, se apoiar no balcão de um bar pra dividir uma cerveja e escutar uma história épica que daria um conto e um filme de duas horas então nem pensar amigão !

Quando se fala em Brasil lá fora, se responde Carnaval, samba, praia e muito sol, sim, é de praxe, é clichê, não se pode negar, não deixa de ter sua verdade, mas para o cidadão que tem sua pátria no coração e é inserido no contexto geral da nação, é fácil mostrar muito mais, mas pra isso é preciso um tanto de civilidade e força de vontade, não basta assistir telejornal e meter o pau naquilo que todo mundo faz, não pode ir com a onda e se deixar levar com a maré, precisa ser um pouco psicólogo, precisa ser um pouco analista da vida cotidiana, precisa sentir todas as camadas sociais, precisa trabalhar e estudar sem se deixar enganar pelos partidários e salafrários, precisa assistir menos Big Brother e ler mais, entender os motivos pelo qual se rouba aqui, pelo qual os impostos são altos, não basta culpar político, tem de saber história meu irmão !

Fácil também é dizer que o Brasil é a bola da vez, você sabe o motivo ? Muitos dirão que é pela Copa do mundo que vem aí, as Olimpíadas, ou talvez por causa da nossa Amazônia, nossa capacidade hidromineral, nossa mão de obra barata, nosso pré-sal e seus tambores de óleo que virão logo à seguir, mas não é só isso, tem também os profissionais de alto nível que estão se formando em nossa terra, enquanto alguns zé ninguém estão seguindo carreira fácil política e garantindo o seu, tem muito jovem por aí estudando e botando pra quebrar, eles são competitivos, são agressivos, confiáveis, inteligentes, falam línguas, enxergam o futuro e são bem sucedidos antes dos trinta anos de idade.

Podemos dizer que aconteceu também na Índia, na China, países gigantes que vieram de uns anos pra cá crescendo exponencialmente, com alguns diferenciais, dependentes de outros países, esses do 1o mundo, os quais quebraram todo o sistema financeiro mundial pela irresponsabilidade e ganância sem precedência na história. Não adiantou a Índia ter seus jovens intelectuais em ascensão trazendo excelência em softwares e engenharia, não adiantou a China ter seus jovens que não dormiam e trabalhavam horas a fio para sustentar uma demanda mundial dos bens de consumo, esses países desabaram juntos com os do 1o mundo, porém estão levando mais tempo para se recompor, enquanto no 1o mundo existe algo chamado recessão, onde as pessoas deixam de gastar "muito" para se manter, esses países que estavam em ascensão do dia para a noite deixaram de "ter" tudo, emprego, dinheiro e moradia.

Homens de negócio desses países do 1o mundo gostam do jeito Brasileiro de se fazer negócio. Como dito antes, temos uma grande parcela da população que é competente, que é letrada e com capacidade profissional além das expectativas, esses nossos profissionais não possuem diferenças culturais tão grandes como de certos países onde a religião está para o tratamento profissional como o sal está para o mar, está tudo misturado e influencia em decisões, assim como a cultura milenar de países asiáticos também trazem dificuldades, aqui é preto no branco, capitalismo selvagem, idéias inovadoras, criativas, soluções baratas para problemas caros, ajudamos a inventar o Facebook e o esquilo da Era do Gelo ! Esse meu amigo, é o Brasil que pouca gente conhece, um Brasil que não depende, se sustenta e que segura o reggae quando a coisa aperta.

Esse Brasil que pouca gente conhece é permeado por almas peregrinas, gente que nasceu aqui e que sempre volta, gente que tem atravessado esse mundo e não esquece seu país, gente que senta nos bares da vida e sorri lembrando do sol e da caipirinha, gente que volta e mostra para o que veio, se insere novamente na sociedade, muda as pessoas ao seu redor, já não reclama dos defeitos e preconceitos, somos essa gente que quando volta quer mesmo é ver o Carnaval de que tanto falam lá fora, que às vezes julgamos baixo e apelador, mas que é a maior festa do mundo, assim como outros países tem seus festivais e suas tradições, devemos sim mostrar nossa paixão por aquilo que somos famosos, a forma de festejar com samba no pé e drible nas canelas, Brasil não é só carnaval, samba e futebol, Brasil é país onipotente que sabe o que está fazendo, onde essa gente tabalhadora vem crescendo e precisa do Carnaval para expor sua história em samba-enredo.

Um bom carnaval meus amigos, estejam vocês onde estiverem.

Tuesday, 25 January 2011

Requiem for Amsterdam


Não devia tê-la deixado na esquina fria naquela manhã de primavera em Amsterdã.

Fugir com a francesa naquele dia me pareceu sóbrio e menos insólito que viver aquela fantasia, aquela ilusão montada num palco de um teatro sujo no lado velho da cidade.

Ela, à que deixei na esquina, dizia sonhar com o momento em que minhas canções nasceram, ela queria estar lá quando aconteceu, quem sabe quando acontecesse de novo, mas o coração se ocupou com outras coisas, e as mãos que traziam as canções para este mundo já estavam carinhando a face de outra.
Quantas manhãs como aquela se passaram por entre cobertores naquele prédio sombrio, manhãs que ambos olhavam pela janela abraçados debaixo de um cobertor empoeirado, com nossas xícaras de café olhando por através, vimos os holandeses passarem olhando para o chão, preocupados com suas vidas, na rota de sua prisão privada em busca de sua recompensa. Horas passávamos ali com nossos olhos vagando sem direção, pequenos detalhes, acompanhando pássaros pequenos que pousavam em nosso balcão, e depois de algum tempo, silêncioso tempo, abriamos nossos lábios primeiro para falar sobre as cores dos prédios no outro lado da rua, depois abriamos novamente para então depositar nossas línguas e entrelaçá-las num beijo.

A senhora da padaria na esquina já sabia de nossas escolhas, não que ela pudesse ler nossas mentes, mas talvez por que nos tornamos previsíveis, mesmo deixando os óculos escuros em casa e trocando meu chapéu de camurça não a enganava, éramos nós de novo. Aquele parque no caminho para casa, Vondelpark, era perfeito para gastarmos 3, às vezes 4 horas admirando a natureza, não só da vegetação, mas também a natureza humana, bem ali no centro da cidade, aquele lugar se transformou em uma usina de pessoas tentando descobrir o outro lado da moeda, procurando respostas em sua intoxicação do ser, rolando pela grama víamos desde pais e mães de família, escritores, compositores e todo tipo de gente, embriagados pela aura de Amsterdã.

Descíamos pela Van Baerlestraat em direção ao Museumplein, gastávamos mais alguns preciosos minutos observando turistas entrando e saindo dos museus, terminando o trajeto em algum café barato à beira do canal, trocávamos algumas palavras, tentávamos entrar em acordo em relação às cores dos prédios, deixávamos transparecer um pouco de nossa intelectualidade, e então, caíamos em nossa cama para morrer de amor e esperar pelo novo amanhecer.

Percebi que estava envelhecendo quando contei quantos batons dela eu havia estragado deixando mensagens no espelho do banheiro. No início era só prazer, as mensagens faziam com que o dia dela ficasse iluminado, uma vez que ela dizia eu ser a razão do sol em seu semblante, com o tempo, esses pequenos detalhes perderam seu valor, já não compravam desculpas por atraso, já não garantiam o calor debaixo daquele cobertor em frente da janela, até mesmo a xícara de café já não esquentava mais minhas mãos, e nosso respirar juntos já não embaçavam o vidro das manhãs frias.

A inocência se perdeu, o amor se esvaiu, ela se foi sem dali sair, só restou o corpo e aqueles olhos amendoados debaixo de olheiras escuras.
A francesa, nossa vizinha, era pintora assim como Van Gogh, dividíamos as mesmas intimidades, seus gritos de paixão vinham do alto de seu quarto ali do lado, acredito que o professor de piano, italiano, era sua razão. Não que ela tivesse um piano, não por assim dizer, das poucas vezes em que estive ali em assuntos corriqueiros não havia reparado, talvez por seus cachos de cabelos louros me tirarem toda a atenção, assim como seu sotaque delicado. Também vinham junto com essa intimidade os choros, aquele em que sabemos que a pessoa colocou um travesseiro em sua boca para abafar sua agonia.

Até o dia em que vinha cabisbaixo com uma flor em minha mão, pedido de desculpas em troca dos beijos de boa noite, e lá estava ela, a francesa em sua porta. Marie era seu nome, longos cabelos louros cacheados, olhos azuis como uma violeta iluminada em dia de lua cheia, aguados pelo choro, sua boca simples de lábios estreitos tremia de cansaço por tantas horas à fio em pranto, ao olhar a flor foi como se um imã a trouxesse até mim, colocou um de seus braços por sobre meu ombro, segurando me por trás de meu pescoço, próximo à nuca e com sua mão tocou meus lábios, já estavam entorpecidos pelo calor em que se encontravam por aquele momento.

Após poucos segundos que duraram uma eternidade, descobri minha alma dentro daquele corpo pálido e impecável, roubei um pouco de sua juventude e a levei de volta à seu quarto, à deixei com a promessa de voltar um dia, na realidade foram apenas minutos, voltei ao meu apartamento, ela não estava lá, suas roupas também não, apenas uma nota dizendo que estava à caminho de um novo mundo, talvez em busca de um novo amor, caso eu fosse um amor renovável, que eu me encontrasse com ela naquela esquina onde nos conhecemos dia desses, aquela que já esqueci o nome, onde nossas esperanças foram depositadas um no outro, e que como vampiros tiramos pouco à pouco, dia à dia, naqueles canais que Deus tocou e esqueceu por lá.

Achei um último batom em nosso banheiro, escrevi "te amei enquanto duramos, te terei em minha memória enquanto vivermos e além, Ik hou van jou".

Dessa vez ficou escrito em nossa janela, de frente para trás, caso ela viesse à espiar antes de partir. Juntei minhas poucas coisas em uma mala e uma mochila, guardei os imãs de geladeira em minha mochila, virei um porta-retratos de forma em que ela não me visse partir e fui em busca de Marie. Passamos à noite sem menção a Julie, Julie que um dia foi Julie e eu, hoje sou só eu, talvez amanhã Marie e eu, talvez só eu de novo, quem sabe ? Marie concordou em me levar para o sul da França, num pequeno tour pela região vinícola e da boemia Francesa.

Nossas mágoas foram esquecidas à longas doses de vinho, começamos vida nova sob o sol, corremos à colher flores pelos campos que botaram comida em nossa mesa, mas em alguns dias frios e de névoa, me vem a imagem de Julie naquela esquina, à esperar por alguém que já não era eu mesmo.



Wednesday, 12 January 2011

Memórias de um cárcere Vietnamita


Acordei numa prisão fétida no meio do nada, não era tão ruim quanto imaginava, creio por não estar tão cheia como as que costumei ver na tv em meu país. Pessoas me olhavam do outro lado do cômodo, hora com medo, hora em tom ameaçador. Já havia perdido a conta de quantos dias estava ali, poderia estar aproveitando as dunas lá fora, aquelas que um dia seguia passos de gente que haviam passado em direção ao mar, mar revolto e bonito que nunca imaginei ver daqueles lados e que vi de relance no caminho para a masmorra moderna.

Acendo um cigarro que teimo em tentar inalar e fazer todo o processo correto de fuma-traga-solta, mas me contento em mostrar aos colegas de cárcere apenas minha cara de mau, de alguém insano que poderia arrancar uma orelha numa mordida ou mesmo um nariz, capaz de tirar olhos com minhas próprias mãos, todo um teatro pra sobreviver nesse quarto privado da liberdade onde tanto acontece, em minúsculos cinco metros quadrados com sala, quarto, cozinha e banheiro incluso, e de graça... com tanta gente reclamando em pagar condomínio em seus luxuosos setenta metros quadrados nos quais convivem solitárias. Aqui não, compadre, aqui compartilhamos tudo. Alguns seringas, outros fotos de entes queridos, alguns poucos chegam até a trocar fluídos corporais e não é nada bonito tampouco convém, acredite.

A tremedeira de minhas mãos aumentam de acordo com os dias de insônia, passar a noite vigiando meu arredor virou rotina noturna, sonhos passam diante de meus olhos abertos, sonho com o sol ali naquelas dunas, logo ali, poucos metros depois do muro, pra lá do arame farpado, depois do poço fundo de água podre de esgoto e um pouco mais pra frente do canil onde deixam os cães que nos guardam.

Disseram tantas vezes que a cadeia era faculdade de ladrão e criminoso, o que será então dito dessa instituição no caso de um intercâmbio, onde ninguém fala minha língua, onde não entendo bulhufas do que falam, mesmo que grunhidos me soam, algum sentido deve ter, isso aprendi quando um dia depois de tanto gritarem algo incompreensível no corredor, sem respostas de lado algum, fui tomado de assalto e levei boas pancadas de um cabo de madeira na nuca, será que chamavam meu nome em mandarim ou japonês ? Será que ninguém os avisou de que pancada na nuca fica marca e aquele pessoal dos direitos humanos podem vir atrás em protesto ? Fiquei bem zonzo e mesmo assim não deixava de pensar em como explicar tudo isso para algum secretário da ONU... seria a ONU responsável por ouvir esse tipo de reclamação ? Talvez uma ONG qualquer, vai saber, vou ter que buscar nas páginas amarelas quando sair daqui, quero uns trocados como indenização.

Perdi a conta dos dias da semana, do mês, perdi a hora, senso de dia e noite, perdi a consciência algumas vezes fruto das pancadas dos carcereiros, hora pelas tragadas falhas no cigarro forte, hora por diretos de esquerda de um detento ex-pugilista, hora por intoxicação alimentar após ingerir aqueles purês amarelos os quais não temos a mínima idéia do que realmente são.

Estar inconsciente ajudou bastante no sentido de relaxar e dormir em paz, digamos que aquelas poucas horas de sono no chão do cárcere era praticamente um coma induzido, que vinha gratificante trazer paz aos meus dias, horas sem abrir os olhos, apenas deixando o tempo cicatrizar tantas marcas.

“Mama I just killed a man
Put a gun against his head
Pulled my trigger, now he's dead”

Não foi o caso, não matei ninguém, mas essa música não me saía da cabeça, deve ser pelo tratamento que nos dão em lugares remotos, independente do delito ou subversão, devemos todos ser tratados por igual, sem preconceito aqui amigo, todos tem o direito de ficar calado, levar a mesma quantidade de pancadas, ter os mesmos tipos de doenças e riscos de infecção generalizada, todos no mesmo nível, incrível, quem dera lá fora no mundo livre fosse assim também, igualdade para todos.

Um senhor jogado as traças em um dos cantos da cela tossia como alguém à tempos pêgo pela pneumonia, misturada em seu pulmão com fumaça de cigarro, mais o visgo que vem da parede onde ele devia ter sua face encostada pelos últimos quinze anos, aquela humidade devia estar encrustada até os ossos do pobre velho, digo pobre pois não sei ao certo o motivo dele estar ali, vai saber quantas crianças ele pode ter mandado mais cedo para o céu na época da guerra ?

Jong era o nome de um chinês que à cada meia hora vinha até mim e batia forte em seu peito magro repetindo seu nome seguido de “XAAAIIIINÁÁÁÁ”, acredito que ele dizia CHINA na pronúncia em inglês, e supus Jong ser seu nome, de qualquer maneira, comecei a chamá-lo de Jong, pra dizer a verdade, nunca o dirigi a palavra, mas em minhas notas mentais, ele era apenas o Jong chinês. Pequeno, sujo, fedor igual ao dos cachorros de rua após uma semana de chuva, seus dentes, os poucos que sobraram, era negros e encrustados como corais do fundo do mar, algo viscoso sempre aparecia em sua língua quando desenrolava à falar, os dentes que tinham melhor disposição lembravam cobre falso enferrujado, com certeza em sua juventude foi enganado e teve seus dentes reais trocados por “puro” ouro, ouro de tolo.

Depois de algum tempo, o qual já era inútil tentar lembrar que existia, alguém em farda verde e mal passada, com um revólver quase enferrujado e botões da camisa necessitando costura, vem até a grade da cela e aponta à minha pessoa, de início o mesmo sorriso de Jong, uma parafernália no lugar dos dentes que lembrava o motor de um Dodge esquecido por vinte anos na rua da casa onde cresci, depois uma expressão séria, a qual dizia claramente que eu estava enrascado.

Fez sinal com os dedos dizendo para me aproximar, abriu a cela com uma mão rápida e precisa enquanto a outra descansava no punho da arma, mesmo acreditando que aquele revólver da segunda guerra recém saído do fundo do mar não iria funcionar, resolvi obedecer, já pensava comigo que deviam ter contactado alguém da minha família do outro lado do mundo disposto à pagar pelo projétil que iria atravessar minha cabeça num muro dos fundos daquela prisão.

Fui levado até uma janela onde me passaram um livro mais antigo que a bíblia sagrada, ordenaram que eu seguisse a sequência de assinaturas na linha em branco abaixo do último infeliz que ali passou, devia por meu nome, assinar, data, local de origem e tive de copiar uns códigos que nem imagino para que serviam.

Terminado o processo, vieram com um saco plástico o qual continha uma mochila surrada com roupas sujas, uma bota mais gasta que a dos soldados no Afeganistão, uma carteira com algumas fotos 3x4 de familiares, amigos e recibos de ônibus, lanchonetes e supermercados, todos usados como agenda telefônica, telefones de mochileiros rabiscados em algum encontro surreal ao redor do mundo. Sem dinheiro, apenas lenço e documento.

Com alguns empurrões fui direcionado à porta da frente, mandam que eu caminhe até o portão principal, alguém aciona e vejo a rua logo ali a frente. Percebo uns urubus à me espreitar, eram na verdade os guardas nas torres de vigia acima do muro, apontando seus brinquedos enferrujados para minha cabeça, nem pense em fazer qualquer retaliação ou gesto obceno, muito perto da liberdade para ameaçar dessa forma. Saio do portão, olho dos dois lados da rua, atravesso, tiro a bota de meus pés, sigo descalço pelas dunas de Nha Trang, vejo o mar lá embaixo. Sento no topo daquela areia mais antiga que o tempo, deixo o corpo e a mente voar por sobre o mar, sem destino, enfim livre.