Friday, 4 November 2011

O tempo que nos resta...

...e eis que o tempo te confunde filho, que te deixa para trás, que te mostra a força que tem, quando se percebe que já passou, as horas, os dias, os meses e anos.

...mas também existe o tempo que vem, aquele que chamamos "futuro", algo que ainda não aconteceu mas que temos a forte certeza de que vai acontecer, vai chegar, e nós, senhores do tempo, acreditamos em vão que lá estaremos. Sem dúvida, até certo ponto, sim, estaremos, mas para sempre acredito que só exista para os diamantes.

...e o mais interessante de tudo isso, é a transformação irreal do passado em nosso presente, o que era agora a pouco, já não é mais, e o desafio do homem tem sido prolongar esse presente, esses milésimos de segundos reconhecidos pela mente humana, em algo que se possa contar e deixar ser.

Com essa breve reflexão sobre o tempo, inicio meu conto sem tempo, não tive tempo ultimamente, o tempo me foi dado e fui descuidado, não o usei tanto como queria, já fazia algum tempo que não soltava a imaginação, como passarinho engaiolado, deixei tudo escondido atrás de uma gaiola com cadeado, sem dó nem ressentimento, fatiei as horas e à elas dei nomes de prioridades, criei a rotina num caderno, feito agenda, mas como definir qual prioridade é mais importante para determinada hora de meu dia, de meu tempo ?

Às horas intermináveis no trabalho são necessárias, a engrenagem Marxista desse mundo capitalista precisa ser girada, pelo menos nessa parte do mundo, e eu hoje sou parte do mecanismo, a troca de meu tempo pelo capital que fará com que o outro tempo, ali no futuro, seja melhor que o agora do presente, as horas "doadas" ao lazer são raras, e à isso me questiono onde erramos e em sã consciencia, deixamos nossos corpos envelhecerem nesse tumulto do tempo, deixamos nossa vista cansada, deixamos o corpo em frangalhos pela troca mal paga de nossas horas nesses dias.

Repetidamente dizemos à nós mesmos, a importância desse tempo, perdemos tempo pensando no tempo, e então olhamos no relógio e já é hora de fazer outra coisa, deixamos de lado e continuamos a girar a roda da vida, passando as vezes em vão pelos minutos, esquecendo de aproveitá-los como se fossem os últimos, por mais que nos lembrem, fazemos o caminho e deixamos de olhar as flores ao redor, olhamos fixamente à frente, querendo enxergar o ponto final, o destino, e às vezes o tempo é tão cruel que não conseguimos chegar lá, não dá tempo, por vezes o destino que traçamos é muito mais longo do que aquele que planejamos, às vezes colocamos o foco necessário na corrida, mas não corremos rápido o suficiente, e ainda assim, deixamos as flores do caminho lá pra trás, no passado, sem nos darmos conta. 

Quero mais tempo, quero mais tempo no presente, quero aprender a viver no presente, para sempre.


Thursday, 4 August 2011

Caminhos

O menino saiu pelo portão principal da escola, em meio a um alvoroço de crianças correndo a encontrar seus pais e em berros pela felicidade de um Natal próximo, ele calmamente caminha em seu uniforme, mochila pendurada no ombro, cabeça cabisbaixa, sentindo as pedras debaixo de seu tênis gasto, pára, olha uma vez mais para trás, o pátio agora vazio, professoras com lágrimas no olhos nas portas das classes, um inspetor de alunos alto, magro, escondido atrás de seus óculos mostrava uma tristeza indefesa, o diretor em frente a secretaría mantinha um ar sério porém sem convencer pelo histórico de semi-embreaguez diário, brincava com seu bigode enrolando as pontas como aquele personagem mau do desenho animado.

Mesmo depois de tantos momentos difíceis naquele lugar, diferenças sociais, bullying, falta de entendimento, angústia e dificuldades, o menino se volta com tristeza, continua em direção ao portão, deixando para trás aquele lugar para nunca mais voltar.

Ele passa pelo portão, toca o muro por uma vez mais, como que deixando parte de sua alma enterrada ali, levanta a cabeça e a vê, indo já ao longe, entre outras crianças era fácil distinguir seus cabelos dourados ao vento e reluzindo o sol, seguia em seu sorriso que por dias parecia pura energia do céu, em que outros, pura demonstração de sua geniosidade. Foi a última vez em que ele viu a menina mais bonita daquela escola, o ano letivo acabara, cada um dos alunos seguiria para um novo lugar e amizades ficariam no passado, saudades ficariam no esquecimento, velhas amizades seriam substituídas por novas e cada qual teria um rumo diferente em sua vida.

Os dias passaram devagar naquele final de ano, e um livro achado numa estante empoeirada foi um dos melhores amigos do menino naqueles tempos difíceis, talvez pela semelhança do personagem, alguém também jovem, um pequeno pastor das terras espanholas na Andaluzia, que teve em um de seus sonhos a visão de um tesouro enterrado, numa terra longíqua, distante de seu lar, sua família e amigos. O pastorzinho então embarcou numa jornada de aventuras que tomou grande parte de sua vida e onde teve encontros com personagens que definiram não só seu caráter, mas grande parte de quem o homem se tornou no final.

A história dos dois, a literal e a do menino recém saído da escola se confundem depois de alguns anos, ele, o menino, também teve sonhos, promessas de aventuras, como uma força inexplicável que indicava também um caminho, uma jornada nada fácil, longa e árdua, até um destino onde seria recompensado afinal.
O menino atravessou mares, florestas, montanhas, vulcões, por terra, água e ar, nada o parou, nada o saciava, o sonho se tornou uma obsessão assim como no livro, a busca era o alimento de sua vida, sentia como se aquele tesouro fosse parte da sua alma dividida em outra época da história do mundo e que nesse momento precisaria reencontrar para justificar sua essência.

Os sinais que encontrara depois de anos em sua jornada começaram a confundi-lo, diferente do livro, nada parecia fazer sentido, ja havia conquistado o mundo e mesmo assim sua sede o impedia de encontrar a paz que imaginava ser o final de contas, nada mais o satisfazia e a volta pra casa era iminente, já nao restava muito mais a fazer, havia perdido grande parte de sua fé.

Vinte anos haviam se passado, o menino que um dia saiu daquele portão em direção ao mundo, resolveu voltar, já homem, para o lugar de onde veio. Mas antes, precisaria atravessar todo o mundo novamente, e em uma de suas últimas noites numa terra do sol nascente, em um navio em meio ao mar, meio acordado, meio adormecido, entre o balanço das ondas e a escuridão de um céu iluminado de longe por estrelas, teve um último sonho, algo que deixou em seu coração uma exatidão de sentimentos, como uma bússola, que o deu a certeza de estar em seu caminho novamente, certo e seguro, como seguir seu norte até seu porto seguro, pois era lá que se encontrava de verdade seu tesouro, o dourado da visão que tivera no início de sua jornada não era ouro, era o cabelo daquela menina de sua infância, a luz do sol na terra, a chama clara de um fogo que não se extingue.

Diz a gente toda por aí que fala-nos dos sonhos possíveis, não impossíveis, de como afinal aquilo que procuras está sempre mais perto do que pensas, e o menino, já homem, acreditou.

... e como disse aquela antiga história no livro à vinte anos atrás,

"O seu coração está onde está o seu tesouro. E seu tesouro precisa ser encontrado, para que tudo possa fazer sentido."

Sunday, 26 June 2011

Winter memories

Ela: "- Fala inglês ? "
Eu: "- Sim, você ? "
Ela: "- Nasci aqui. "
Eu: "- Faz sentido... "

Ela esfrega os olhos vermelhos, ajeita o cabelo, endireita a coluna, abre um sorriso e pergunta:

"- Você não é mais um daqueles que entram em nossas vidas, pra passar uma noite em nossas camas e depois sumir, é ? "
"- Não... "
"- Ótimo ! " disse ela.

... a noite voou, e no final estava apaixonado.

Ela pediu mais uma vodka com coca-cola, ajeitou o cabelo novamente, disse que iria para o banheiro, 
" - Espera cinco minutos e me encontra lá dentro ..."
Naquela noite pensei ter achado a resposta para as minhas perguntas, aqueles olhos azuis eram o infinito universo em que eu poderia me perder por toda a vida. Minha rotina sumiu, alguns dias era acordado por um abraço mais apertado, outros por um beijo à queima roupa e quando era meu despertador em pleno rock & roll, sabia que estava sozinho e não era um sentimento bom.

Bom era acordar num sábado e ver ela com uma cesta de frutas arrumada, dois livros roubados da minha estante separados e aquele baton vermelho contrastando com seu chapéu e óculos de sol retrô. O dia deitado no parque ao sol passava muito rápido, e de repente ela me surprendia tirando uma garrafa de vinho de sua sacola de pano pintada à mão.

Ficávamos pelo final de tarde jogados por cima um do outro, até onde o calor do vinho já não nos esquentava mais e o sereno da noite nos impedia de continuar nossas discussões literárias, juntávamos nossas coisas e tomávamos o rumo inebriante pelo parque até o ponto de ônibus mais próximo,  nossa jornada era feita de risadas bobas, danças mal coreografadas e eu pedindo desculpas aos passageiros do ônibus pelo disturbio da paz.

Aos sábados passávamos à noite fazendo planos, contando histórias de nossa juventude, nos intervalos fazíamos amor, quando menos esperava, o brilho do sol por entre a cortina me lembrava que era hora de trabalhar, domingo cedo, tarefa quase impossível, saía de casa rastejando de cansaço da noite não dormida.

A rotina do domingo era sempre a mesma, vizinhos de ressaca se misturavam aos clientes antigos com suas famílias pelas mesas do pub. O gerente gritava ordens para o 2o andar onde ficava a cozinha, e minha cabeça parecia querer explodir. Até que às 11 da manhã de um dia tipicamente Londrino, frio, mas ensolarado, lá estava ela em minha porta com uma caneca de capuccino em sua mão, à extendeu com sua mão branca como a neve que teimava em deixar seus flocos na janela.

Depois daquela manhã não só viciei no café diário, mas no sorriso por trás daquele baton vermelho, no azul dos olhos por trás daqueles óculos retrô, do cheiro por baixo daqueles cabelos negros e naquela pele branca escondida por entre seu vestido de seda florido.

Um inverno foi compartilhado debaixo de edredons e chocolate quente à base de creme de whisky com Baileys, cantávamos um para o outro em frente à lareira velha esquecida no canto da sala, discos de vinil davam o tom retrô que ela tanto gostava, jogávamos cartas com regras que ela inventava na hora, escrevíamos poesia em papéis que depois eram jogados no fogo da lareira, dizia ela que as palavras eram muito perigosas para serem criadas e libertas ao mundo, e com as faíscas do fogo víamos frases formadas subirem pela chaminé, rumo ao céu escuro e frio.

E com o tempo percebemos que não se pode ter tudo, que os sonhos quando prontos se tornam uma utopia, algo que não conseguimos apalpar, que erramos ao deixar a poesia voar, que as palavras ao mesmo tempo que perigosas, servem como o alimento de uma relação, e que no torpor de tudo aquilo, escolhemos deixar o tudo de lado e seguir com nossas vidas na forma simples, pois o tudo é complicado demais. Somos como um grão de areia no universo do entendimento, querendo burlar as leis naturais pintando um quadro perfeito, que no final se torna um espelho, quebrado, com frases escritas em batom vermelho, separadas pelas rachaduras da vida.

e em minha vida, sobrou o capuccino que aquece meus lábios nas manhãs frias, para lembrar que o ter tudo é possível, desde que se tenha coragem de enfrentar.








Saturday, 11 June 2011

Love hurts

Em meio aquela chuva ela continuava a correr, como se tentando escapar de seu destino que vinha logo atrás, seus cabelos negros escorriam como seda por sua pele branca como leite, seus olhos marejados brilhavam como o azul do oceano em dia de sol, o verão tinha apenas começado.

Ele havia esquecido a chave dentro do carro e quando bateu a porta se deu conta do terrível engano, se perguntava por quê essas coisas acontecem sempre na pior hora, iria se atrasar para a entrevista, já não era suficiente estar desempregado à algum tempo, tinha também de ter má sorte nos momentos cruciais para completar o quadro.

Ao atravessar o parque correndo para pegar o ônibus, escorrega em uma poça d'água e seu sonho de uma carreira brilhante é arruinado naquele instante, já não lembra seu nome ou em que mês está, tamanha sua dôr.
Ao ver aquele engravatado correndo em sua direção com ar de preocupado, ela se esquece por alguns segundos de seus próprios problemas, ele aparenta ter um peso muito maior em seus ombros, até o segundo seguinte onde ele vai para o chão como que desafiando a lei da gravidade e então ela percebe que o dia dele começou bem pior do que o dela, e isso a deixa desconfortável, naquela manhã ela queria que o céu desabasse por sobre sua cabeça, não sobre a de um pobre desconhecido qualquer.

Ao abrir os olhos e se deparar com o oceano a encará-lo, pergunta: "quanto tempo você levou até aqui?"
Ela sem entender pergunta em resposta:"como assim?"
-"você não veio do céu pra me buscar? Você não é um anjo? OK, essa é das antigas, mas com a dôr que eu estou sentindo não consigo pensar em nada melhor..."
E aquele sorriso inesperado salvou não só o dia de ambos, mas também aquele verão.
Terminaram o dia em um café, não perceberam que foram longas horas conversando com uma única pausa em que ele ligou para sua entrevista com uma boa desculpa, ao que responde do outro lado da linha de que a reunião era mera formalidade, o emprego já era dele.

Passaram aquele outono construindo sua vida num álbum de fotos que mais tarde transformou-se em um castelo de cartas, ficaram ali fotos dos buquês de flôres aos sábados de manhã, jantares surpresa à luz de velas e domingos preguiçosos a beira da cama.

Naquelas fotos estavam promessas escondidas de filhos para montar um time de futebol ou uma companhia de ballet, férias aos 40 anos em lugares exóticos, cafés à beira do Sena aos 50 e degustação de livros na varanda debaixo do cobertor aos 60.

Se tornaram vicio um do outro, cada instante longe era insuportável, a voz no telefone já não acalmava aquela fome.

Certo dia a beira da cama ele confessa seu sonho de viver sua velhice no campo, casa simples, vastos pastos gramados com animais e um lago, ela por sua vez tem em mente aquele apartamento no centro próximo daquele restaurante e de seu teatro preferido, sem se esquecer do parque para suas longas caminhadas no final de tarde.

Sem ao menos perceberem, assim se foi, eram duas pessoas que se tornaram uma só e essa pessoa foi envenenada pelo tempo que a partiu em pedaços e que não rimavam.

As flores de bom dia se transformaram em recados na geladeira, no lugar dos poemas ficaram as contas de luz e telefone colados no calendário, e a data daquele dia no parque, que era marcada em vermelho, já não tem sido comemorada nos últimos anos, lembrava os sempre daquele jantar em que ele atrasou e ela não sorriu, dividiram a garrafa de vinho e discutiram amenidades, no final da noite a data caiu no esquecimento assim como a paixão que os mantinha acordados noite afora no passado.

Em um dia dos namorados cinzento, chovia e ele precisava ir ao escritório resolver alguns últimos detalhes de um projeto, acordou, olhou do lado e ela dormia calmamente. Sua vontade era dar lhe um beijo de bom dia, pedir perdão pelos últimos anos apáticos em que trocaram as prioridades. Mas também pensou que depois de tanto tempo poderia soar hipócrita numa data comemorativa.

Vestiu algo confortável e casual, pegou sua mochila e saiu pela porta sem fazer barulho.

Ela então abriu os olhos, deixou escorrer uma lágrima, e pensava o por quê havia fingido estar ainda dormindo ao invés de pedir lhe que ficasse mais um pouco na cama, que sorrisem um ao outro, deixando as histórias serem contadas e lembradas por suas pupilas, e que em um beijo tudo fosse resolvido, e que aquele gesto fosse o antídoto para o veneno que o tempo injetou naquela relação.

No caminho para o trabalho, resolveu fazer um atalho e passar em frente ao parque onde à alguns anos tinham se conhecido, primeiro passou no mesmo café em que tiveram seu primeiro encontro, pediu um capuccino para viagem, estacionou o carro próximo aquele ponto onde havia caído e ela havia o ajudado à se levantar, sentou se em um dos bancos e ficou vendo o tempo passar.

Notou um menino chorando com um filhote de labrador em seu colo, o cãozinho teimava em lamber suas lágrimas, e ele conversava se desculpando por alguma razão. Esqueceu seus problemas por um instante e perguntou ao garoto se estava tudo bem, ele o disse que o filhote foi achado abandonado e queria ficar com ele, porém os pais não queriam um cachorro dentro de seu apartamento.

Perguntou ao menino se ficaria menos triste se o cãozinho tivesse um lar em que ele pudesse visitá-lo, ao que concordou prontamente e com um sorriso entregou o filhote.

Desistiu de ir trabalhar, nada era tão urgente que reconquistar o amor que perdera naqueles anos cruéis. Passou em uma floricultura, comprou rosas vermelhas, uma caixa de chocolates no mercado ao lado, alguns pães frescos para o café da manhã e voltou para sua casa. Ela continuava na cama, com os olhos inchados das lágrimas derramadas, ele abriu a porta com um buquê em seus braços, e o filhote correu por entre suas pernas para então pular em cima da cama, pronto à lamber mais lágrimas de um mundo em que quase nada conhecia.

Em silêncio passaram a manhã com suas xícaras de café, observando o novo morador destruir alguns cobertores, rasgar algumas almofadas, e trazer vida para aquele lugar onde à muito vivia em tristeza. Sem terem trocado sequer uma palavra, tudo havia voltado como no primeiro instante em que se conheceram. O silêncio foi quebrado com a notícia de que estavam à espera de seu primeiro filho, e aquele amor que parecia ter secado como uma árvore antiga dos sertões, de repente floresceu como um jardim na primavera.

... e viveram felizes para sempre.


Thursday, 2 June 2011

Em busca do sem fim

Por que precisamos de tragédia, do drama, de histórias em nossas vidas, tudo desde o comeco parece tao mais bonito quando contado em formato literal. 

Um dia a muitos e muitos anos atrás estava sentado sozinho embaixo de uma árvore espacosa, descalco, bermuda velha e camiseta furada, ao lado minha blusa de moleton com as mangas amarradas, formando uma especie de sacola onde eu guardava as frutas roubadas nos sitios vizinhos, onde ate os caes de guarda eram meus amigos. 

Na verdade eram eles preguicosos, daqueles que assim como os mexicanos, fazem a hora da ciesta, e nessa hora em que eu pulava as porteiras alheias, eles apenas levantavam as orelhas, olhavam de forma brejeira e ali me deixava quieto em meu delito.

Subia o morro e ficava la de cima vendo o tempo passar, escutava o silencio, sentia uma forca em ver a vila la embaixo, mansa, nao quieta, mas tambem sem algazarra de cidade grande, compadres passavam pelas ruas baixando os seus chapeus em respeito um ao outro, comadres ficavam pelas esquinas contando seus contos, criancas cacavam seus passarinhos com estilingues ou se esbaldavam pelos bracos de rio ao redor, pequenos exploradores assim como eu.

Acordava assustado sem ter visto o tempo passar, acordava pelo barulho do gado passando ao lado em direcao ao ribeirao no final de tarde, por algumas vezes vinha junto um boiadeiro, daqueles de 15 anos de idade, com pedaco de capim mascando entre os dentes, chapeu de palha batido daqueles que passaram dez anos entre sol e chuva no canavial, botinas gastas e maiores do que seu pé que causavam bolhas imensas.

Nao sabia dia do mes, tampouco da semana. As horas eram contadas pelas batidas do sino da igreja, até entao eu acreditava que era o padre realmente que puxava uma corda e fazia com que o sino badalasse, alguns anos mais tarde descobri que era apenas um auto-falante e uma gravacao rustica que tocava automaticamente dizendo a hora para a vila inteira ouvir. 

Só quem estava lá pode dizer o quanto nos aterrorizou o toque de meia noite e meia, o silencio do interior, a nevoa que envolvia toda a vila por ser povoada ao lado do rio, as historias mais mirabolantes contadas durante o dia vinham a tona nesse horario, e nossas cabecas atormentavam ate o cansaco chegar e fazer com que desmaiassemos em sono profundo, acordando pelas manhas salvadoras de sol e cheiro de café passado.

Lá de cima do morro eu via todo dia ela passar, a menina de bicicleta que vinha pra vila todo dia no mesmo horário, saía pela estrada do meio dos cafezais, imagino morar num sitio pelos arredores, e deveria vir a vila para trazer coisas ou buscar mantimentos, usava sempre a mesma saia rodada branca de rendas sujas nas pontas, tinha os cabelos louros e rebeldes, uma brancura na pele que reluzia luz do sol e de longe se podia ver que sorria ao descer a estrada por detrás do morro, sem freio, sem medo e com o vento como seu amigo.

Imaginava ela cantando enquanto pedalava aquelas estradas poeirentas, devia assobiar belas cancoes, daquelas que tocavam em radio AM que nossas avós sintonizavam pela manha, de vez em quando soltava uma das maos e tentava desajeitadamente arrumar o cabelo, parecia até saber que eu a estava observando dali de cima, e sonhandoem um dia a encontrar, poder dizer um oi e perguntar se poderia a conhecer melhor. 

Nunca aconteceu.

Tenho saído por esse mundo afora sem exito, algumas vezes tentei me enganar entoando discursos de que queria experimentar novas culturas, mas na verdade estive mesmo em busca daquele ser que quero pra ser meu par, da metade da laranja, tampa da panela, alguém pra compartilhar momentos e segredos, alguém pra chamar de minha, e a tarefa cada vez fica mais dificil, pois o mundo esta agora cada vez menor, ao menos em meu mapa. 

A encontrei por diversos lugares, momentos impróprios, horas desacertadas, noites esculhambadas e manhas de ressaca, durante jantares a luz de vela, almocos de domingo na feira, em passeios de maos dadas pelos parques e picnic na sessao da tarde, esse amor eu achei nao por uma, mas por diversas vezes, e ainda tenho a esperanca de que um dia será pra sempre, e que esse sempre será pra qualquer lugar...

Saudade da simplicidade nas tardes debaixo da arvore, onde o amor se resumia em ve-la passar com o vento em sua bicicleta...

Wednesday, 18 May 2011

San Cristobál

Encostado numa árvore à beira de uma rua não pavimentada no bairro de San Cristobál, lá pela Calle 18, travessa da Carrera 7, gasto meu tempo à vê-lo passar. Vejo um bando de meninos chegar em uniforme, muito falantes, sapateando pelas pedras soltas da rua, chutando latas enferrujadas, gritando com as velhas nas janelas, jogando pedras nos cachorros largados e atentando os gatos vadios.

Correm para dentro de suas casas, mais gritos, suas mães tentando os fazer comer algo, televisão falando sozinha num canto da casa, destoando a tarde pacata. Em pouco tempo todos estão de volta, em seus shorts rasgados, camisetas surradas e esburacadas, chinelos de borracha gastos pelas peladas de rua, cada um com um instrumento que me lembrava algo musical.

Buscam pelas latas chutadas e vão formando um círculo, alguns trazem pedaços de madeira velha para se apoiar, outros apenas se deixam largar pelo chão, nem um pouco preocupados pelo córrego a céu aberto que passava numa canaleta improvisada na lateral da rua, como uma sinfonia, cada um faz o preparo de seu instrumento, pequenos violões desafinados, um tambor com couro de cabra, uma gaita surge do bolso de um deles e outro acrescenta algo que não me vem a cabeça o nome, mas que produz algum ruído aquela congregação.

Entre risadas e brincadeiras, tocam sua rumba, tocam suas canções desafinadas e seus hinos infantis, mesmo que em nada se pareça com uma verdadeira música, o efeito sonoro os trás tão bela animação.

Um velho descamba de seus aposentos, acordado de sua ciesta pelo relógio natural da tarde, passa pela cozinha onde a chaleira assobia o café pronto, busca no armário amarrado à parede uma caneca de alumínio com a imagem de Nossa Senhora, acena para sua velha esposa sentada numa cadeira de balanço prendida à seu tricô, e então sai para a rua.

Senta-se numa pedra posta ao lado da parede feita de barro e tijolos velhos, camisa amarrotada, botões a querer pular, calça de um brim bege tanto pela poeira como pela origem, seus pés tinham tantas rachaduras como o árido solo do sertão, seu chinelo feito de um couro curtido já se desfazia como cadáver de algo que já fora vivo um dia, suspira, tira do bolso seus papelotes, um canivete velho sem fio, uma goma de fumo, e começa seu ritual a criar seu momento de paz.

Seu bigode evidenciava o tempo em que fumava, por meus cálculos, mínimo de 40 anos pela mancha amarela naqueles fios brancos envelhecidos, seus olhos gastos pela catarata, num azul marejado e coberto pela névoa branca da idade. Pediu aos meninos que tocassem algo mais apropriado, talvez algo de sua época, algo que o recordasse dos tempos em que era ele ali a buscar por afazeres em sua juventude, do correr descalço pelas vielas esburacadas, à se esconder pelos barracos abandonados, ou pelas lajes proibidas das casas coloridas onde se chegava pendurando-se pela árvore vizinha.

Buscaram nos recônditos de suas memórias algumas canções tocadas por seus avôs e forçaram algumas notas goela abaixo, satisfez o velho com seu cigarro, seu sorriso leve mostrava que já não estava mais ali, estava longe em seu sonho, sonho que continha saias rodadas, comidas picantes, mulheres ardentes, garrafas vazias, tardes na colheita, noites na estrebaria com seu amor às escondidas, farras nos bares da cidade, e uma luz ressaqueada do sol amanhecido.

Um dos meninos chamava pelo velho, pedindo outra canção que pudesse acompanhar, sua resposta era apenas um rosto ligeiramente calmo, olhos fechados tristemente, mas num sorriso tranquilo, seu cigarro jazia pelo chão, seu braço direito caído ao lado do corpo, sua mão esquerda descansada sob a barriga estufada, seu sonho o levara. Se expirou numa tarde de segunda, assim como veio, se foi num piscar dos olhos, atrás das saias rodadas e das garrafas por esvaziar.

Wednesday, 11 May 2011

...y se perdió los ideales

Dos bens e dos males de se viajar, da dor infligida na alma e do prazer enraizado ao coração, eis que o pecado se aflora em vias de contramão, paradas em portos sem âncora onde todos desembarcam, mas só o viajante parte.

Estava em um estabelecimento precário, mas cheio de gente com bom coração.

Uma senhora que buscava o título de respeitada, mas que a cinta-liga por debaixo da saia a condenava, um garoto totalmente fora de contexto pela hora e local buscava pela carteira de um senhor cansado e desatento. O dono do bar limpava o balcão com algo que parecia mais um pano de chão, mantinha seus olhos atentos à um grupo que jogava cartas de forma suspeita, em alguns momentos percebia um movimento sorrateiro por baixo da mesa. Algo parecia não estar certo.

Alguém entra batendo a sola do sapato como que trotando pelo piso, brada algo incompreensível, tira de sua jaqueta surrada um revólver enferrujado e balança pelo ar como um helicóptero desvairado.

Hernan, o dono do bar, belisca a ponta de seu bigode, estica os fios revoltados em busca do penteado perfeito, dá um sorriso que move suas gordas bochechas e teatralmente bota sua mão debaixo do balcão.

O cachorro louco abaixa suas mãos, solta um urro, bufa, enche o peito com seus pulmões cheios de ar, e rapidamente volta pelo mesmo caminho por onde veio.

"- Mais um corno.", resmunga alguém próximo à mim, recostado numa parede suja.
"- Muito normal por aqui."

Noto que era um velho, parecia estar dormindo na última vez que havia checado, babava em seu próprio peito, por entre os botões de sua camisa aberta e amarrotada, cabelos meio longos, grisalhos e oleósos, barba por fazer e garrafa quase por acabar ao seu lado, cigarro pendurado na ponta de seus dedos marcados e com suas unhas sujas.

"- Mi nombre es Lopez, señor. Mucho gusto."
"- Encantado." Respondi sem muita empolgação.
"- Sabes que soy un de los ultimos combatentes de verdad por las FARC ? Cuando teníamos ideales ? Cuando nosotros no eramos criminales ?"

Não sabia se dava risada, se corria o mais rápido para fora dali ou se pedia "un ratito" para armar a câmera e começava uma entrevista completa. Resolvi não abusar da sorte, entre um copo e outro, me embriaguei não só pela névoa etílica, mas pelas histórias de um retirante combatente, tão certo de seus ideais que morreria por eles. Como ele me disse, Deus não o deixou ir assim, fez com que sobrevivesse para que pudesse ver a queda de seus heróis, a corrupção de seus companheiros e a tomada da sujeira no lugar de seus hinos criados debaixo de chuva pelas selvas Colombianas.

À mim, não me cabe julgar.

Era ele realmente um sonhador com farta imaginação, ou era ele um autêntico Che Guevara Colombiano, difícil dizer. Foi um bom entretenimento para a primeira de muitas noites por essas bandas. Aquele homem cansado de repente mostrava tanta energia que era difícil pará-lo, se escondia por entre as mesas, fazia gestos como que portando metralhadoras entre a densa selva, mostrava como se feriu por tantas vezes e já estava no final não só de sua bebida mas também de sua sanidade, derrubou-se pela mesa em choro quieto, dizia algo como não ter tido sua família, da dor em ter deixado seus pais e irmãos na juventude e ter ido lutar por eles lá longe, da volta à sua casa após anos e encontrar metade daqueles que havia deixado no passado, e os que sobraram já não se lembravam mais daquele lutador, tampouco lembravam eles de seus ideais.

... o outro lado do ideal, reflexão pessoal:

A mensagem implícita da guerrilha e de todos os conquistadores é o reconhecimento de uma hierarquia pela força, a escravização do povo e tomada de sua vontade pela mesma. Quando não se deixa a população escolher por uma forma de vida, por um lugar, um trabalho e seus hábitos, já estão escravizados.
Não é que as guerrilhas terminavam escravizando toda a gente, ao menos não era o que se propunha desde o início, escravizar a gente era o outro "ideal".

Roubá-la e escravizá-la. Aqui é onde se encontra o que é realmente a guerrilha: uma constante da história humana. Todos os impérios cresceram roubando e escravizando. Porém sobre tudo o que existe, há uma constante da história latino-americana:
Os conquistadores vieram a roubar e escravizar. Os mesmos sequestros se praticaram nos primeiros anos da Conquista. Não ?

Todos os revolucionários obedecem a essa mentalidade dos guerreiros e reproduzem um fenômeno tradicional. O que acontece hoje em dia é apenas uma corrupção da linguagem. Não se diz mais "roubar", se diz "desapropriar", não se diz mais "escravizar" e sim "liberar", não se diz mais "sequestrar" e sim "deter", porém a essa mentalidade de guerreiros se soma a ideologia herdada dos Espanhóis na época da Conquista.

Os ideais se perderam durante os anos, a força jovem daquela banda se corrompeu e usou o discurso antigo para promover sua vida capitalista, aquela mesma vida que antes julgavam errada, se tornaram fiéis à Marx, mas ainda condenando os Marxistas.

Enquanto isso alguns se pegam à sonhar pelos bares socialistas.

Tuesday, 5 April 2011

Do passado ao futuro num piscar de olhos

Concentrado em frente ao meu laptop, trabalhando e buscando soluções práticas para problemas banais, um rádio no canto da sala começa a tocar uma música que esteve presente em meus dias nos meados de 2005.

Melhor do que o DeLorean do De Volta para o Futuro, fui transportado imediatamente para o passado, fechei os olhos e senti o ar gélido daquela primavera, a fragrância de meu próprio perfume da época me vem fácil, as imagens de meu dia-a-dia chegam aos meus olhos, projeto em minha frente o ambiente do escritório, minha mesa rigidamente organizada, uma pequena escultura trazida do Peru ali na decoração, um quadro com a visão e missão da empresa alinhado com o monitor de meu computador e logo ao lado do telefone um porta-retrato com a foto de nós dois, foto que de tempos em tempos trocava por uma mais atual ou meramente para mudar a paisagem.

A música continua a tocar, não só no rádio como em meu pensamento, música que eu colocava pra ouvir quando pegava estrada em direção à casa dela, música que colocava pra me acalmar em dias estressantes, música que eu ouvia quando trabalhava nos finais de semana longe dela, a mesma música que tocava no meu carro ao voltar da faculdade depois de um exame final.

"You got a fast car
I want a ticket to anywhere
Maybe we make a deal
Maybe together we can get somewhere"

Soava como se ela cantasse em meus ouvidos e sim, eu tinha um "fast car", eu poderia dar à ela um ticket to anywhere, e talvez nós pudessemos ir pra algum lugar, mas não foi assim que aconteceu, ambos fomos pra algum lugar, mas o destino não ajudou que fossemos para o mesmo lugar.

O tempo se esvai entre nossos dedos como grãos de areia, escorregando de nossas mãos, os anos passam e as memórias ficam, até um novo ciclo recomeçar e como num filme clássico repetido das tardes de domingo, tudo segue o mesmo rumo novamente, o ambiente do escritório, a tela do computador, mesa impecávelmente organizada, e o telefone ali no canto, porém sem um porta-retratos para me recordar de boas lembranças.


"Anyplace is better
Starting from zero got nothing to lose
Maybe we'll make something
But me myself I got nothing to prove"



Hora de um novo recomeço, sem nada à perder em todos os sentidos, e como diz a música no rádio, "eu mesmo não tenho nada à provar", então que assim seja.

Thursday, 31 March 2011

Loy Krathong, Thailand


"November full moon shines,
Loy Krathong, Loy Krathong,
And the water's high in
the river and local klong,
Loy Loy Krathong,
Loy Loy Krathong,
Loy Krathong is here
and everybody's full of cheer,
We're together at the klong,
Each one with his krathong,

As we push away we pray, We can see a better day. "
This is a translation of the song sung by Thai people to celebrate Loy Krathong.

Loy Krathong is basically a Thai festival that happens all over the country. In Thai, Loy means "to float" and krathong is the name of the little lotus-shaped boats, which are constructed for the occasion. Loy Krathong is held on the evening of the full moon of the 12th month in the lunar calendar. This usually falls in November and I was there when happened in the past year, 2010.

Loy Krathong is long anticipated all over Thailand and especially in Bangkok, thousands of people gather on the banks of the rivers and take boat trips along the canals.

Last year, I was in Ko Samui then I went to a huge lake after dark, just around the place I was staying. The sun had only just set, several hundreds of people had already gathered.

I walked around the area, groups of people had gathered to celebrate together. All the tables and chairs had been set up everywhere, the tables already covered with bottles of Sangsom whiskey, glasses and buckets of ice. All around, stalls were set up selling krathongs in every size and colour, fireworks and toys.

At around 8 pm the whole thing began. I found a place on the river bank and watched in awe as about thousands of krathongs went down the river.

There was a fireworks display during long minutes. Several children were firing tubes with small rockets into the air, shouting and jumping with entusiasm.

Then it was time for me to launch my krathong. I patiently waited my turn at the water's edge, then lit the candle and incense sticks in the center and lightly placed my krathong on the water, making a wish as I did so. Many people believe that their wish will come true if their candle continues burning until the krathong is out of sight. After a couple of months, I can say that my wishes are coming true.

I watched while my krathong drifted into the river and got lost amongst the hundreds of others already floating there. The flickering lights of the candles on the water created a magical atmosphere.

The Loy Krathong festival dates back about 700 years. Coinciding with the end of the rainy season and the rice harvest, it is a way of apologizing for polluting the water. Thai people float a krathong on the water to thank the Goddess of Water, Phra Mae Khongkha. The act of floating away the candle raft symbolises letting go of anger and grudges so that a person can start life afresh.

Another symbol of Loy Krathong are the beautiful lanterns. As I walked around the place, I came across a group of monks holding aloft one of these large paper lanterns and waiting for it to fill with air. When inflated, a candle was placed inside and the lantern was released, rising high into the air to become another flickering point of light.

That experience stayed on my mind and will stuck forever with me, these kind of tradition makes me respect and appreciate all the people from the other side of the world, the oriental culture and their values, even when tragedy strikes hard, they keep on going, praying, helping, singing, with great patience and will. Doesn't matter if it's a tsunami in Thailand, or a volcano exploding in Indonesia, earthquake happening in Japan, flooding in China or the bloodiest war of all times in Vietnam, Laos and Cambodia, nothing can stop them smiling.

We should pay attention and try a little bit harder, as well.

Sunday, 27 March 2011

Sampa

Fácil é colocar letras numa tela em branco, ou num caderno vazio, difícil mesmo é olhar para um muro tosco ou num prédio recém demolido e traduzir aquilo tudo em palavras, ver o cansaço em um rosto e enxergar a indescência por trás daquilo, ouvir o eco da madrugada e resumi-lo num ponto final.

Tiro uma cerveja da geladeira, sigo à passos lentos até a varanda, o conglomerado de apartamentos ao redor suprime o sol e a visão da rua, o silvo do vento por entre o concreto trás lembranças remotas de uma São Paulo de minha infância, onde quando falavam da capital em casa tudo o que me vinha à mente era o congestionamento, o calor intenso, os arranha-céus caindo aos pedaços no centro velho e a sujeira do ser humano transeunte das praças públicas.

Não me contento com aquela visão, meia volta volver e estou em direção à janela da sala, encosto no parapeito, lentamente sigo toda a linha do horizonte, devagar, sem pressa alguma. Fecho os olhos por um instante e estou de volta à janela da cozinha do meu apartamento em Londres, com a sutil diferença em que nessa recordação estou enrolado até o pescoço com meu edredon, caneca de café fervendo em mãos e olhar de nostalgia mirando o branco do lado de fora da casa, toda aquela neve, frio e eu perdido em pensamentos.

Abro os olhos e de volta à São Paulo, copo americano cheio de cerveja com o colarinho espumando, calor infernal e apenas um short daqueles que jogamos "pelada" na rua para cobrir minhas partes, passo a mão pelo meu rosto e lembro que amanhã é dia de trabalhar de novo, preciso fazer a barba e pentear o cabelo. Do alto de minha atual janela vejo varandas e pessoas concentradas em seus afazeres, o doce prazer da vida simples, uma senhora rega suas plantas e imagino sua conversa com as únicas companheiras que tem, com as roupas penduradas no varal logo ao lado posso dizer com precisão que vive sozinha, talvez viúva, talvez divorciada, solitária com certeza.

Alguns prédios à esquerda e dois rapazes conversam fervorosamente em suas camisetas de time, sentados numa daquelas mesas plásticas de boteco, cores e emblemas diferentes, um milagre estarem tão passíveis numa conversa em plena São Paulo de fanáticos futebolísticos, um andar abaixo e um senhor de idade passa um bom tempo entusiasmado com seu jornal e uma caneta em punho, seria um caça-palavras, palavras-cruzadas ou talvez buscando por um emprego nos classificados ? Poderia apresentá-lo à senhora das plantas no prédio vizinho, why not ?

Meus olhos percorrem cada centrímetro à minha frente, vendo tudo mas ao mesmo não prestando atenção à nada, apenas um registro pobre da vida comum. Um casal briga na sacada de seu apartamento, ele aos berros do lado de fora e ela pela janela, visivelmente lavando à louça, retrucando grunhidos e talvez até mágoas reprimidas, é meus caros, vida à dois não é fácil.

Entre prédios posso ver um estacionamento lá atrás, grande, carros de todo tipo estão lá parados no sol, um garoto de bermuda e camiseta cavada passa entre os carros, pára em frente uma Mercedes e com as duas mãos em concha se pôe a observar dentro do carro pelo pára-brisas, busca no bolso de sua bermuda alguma coisa e tira um molho de chaves, entra, o alarme dispara, alguns segundos se passam e então o som estridente do alarme cessa, os faróis se acendem, segundos depois se apagam, o menino então reclina o banco do motorista ao máximo, como se fosse uma cama, bota as mãos atrás da cabeça como se fosse tirar um cochilo e então ouço um forte som vindo dessa direção, samba de raiz ligado no último volume dentro do Mercedes. Estaria o ar-condicionado ligado também ? Espero que o cliente do estacionamento não perceba.

Uma garotinha de aproximadamente 7 anos de idade, cabelos claros e cacheados brinca no play do condomínio lá embaixo, sozinha, se diverte empurrando um balanço vazio, nem o seu ursinho de pelúcia à acompanha nessa hora tão necessária. Penso comigo se o senhor das palavras-cruzadas e a senhora que cuida de suas plantas não fariam um bom trio numa tarde de domingo, deixando assim a palavra solidão longe de meu blog nesse momento, a famosa expressão "sentindo se sozinho no meio da multidão" faz bastante sentido nessa hora.

Faço uma última varredura no horizonte, minha cerveja já acabou à algum tempo, hora de voltar à realidade e tirar minha roupa da máquina de lavar, colocar pra secar e procurar algo não saudável na geladeira para me alimentar, num instante vejo um rapaz no prédio da frente com um binóculo olhando diretamente para minha janela, levanto meu copo como que em uma saudação de bar, ao que ele levanta o braço em um aceno de mão sem tirar o binóculo de seus olhos. Acho que Sampa está sozinha nesta tarde de Domingo.

Tuesday, 22 March 2011

Dicas de viagem do século 17

*1. Faça das viagens uma parte da educação de sua vida;
Viajar, quando se é jovem, faz parte da educação, nos mais velhos, parte da experiência. Ele que viaja para o interior, está frequentando uma escola, antes mesmo de aprender sua língua, e não indo viajar;

2. Mantenha um diário, seja no mar ou por terra;
É estranha essa coisa, das viagens por mar, onde não se tem nada para ver à não ser céu e mar, o homem deve fazer diários; mas viajando por terra, onde existe tanto pra ser observado, a maior parte ele omite, como se as oportunidades para vivenciar o momento sejam melhores que anotar as observações, sendo assim, traga sempre um diário e deixe que tudo seja registrado;

3. Vá em busca de visões interessantes, como:
- Cortes dos Príncipes (especialmente quando ele dão audiência à embaixadores)
- Cortes de Justiça (enquanto eles se sentam e ouvem as causas)
- Igrejas e monastérios (com seus monumentos e obras espetaculares)
- Muros e fortificações das cidades e vilarejos
- Portos, antiguidades e ruínas
- Tesouros, jóias da coroa, robes, gabinetes e raridades
- Navios e embarcações
- Casas e seus jardins, próximas das cidades grandes
- Armamentos, arsenais, armaduras, galerias e galpões

4. Vá em busca de atividades interessantes, como:
- Exercícios de cavalaria, esgrima, treinamento de soldados
- Comédias, como as de anfiteatros a céu aberto
- Livrarias, colégios, disputas e palestras
- Baile de máscaras, banquetes, casamentos, funerais, execuções capitais como enforcamento público e decapitações em praça pública
- Prisões

5. Faça uso de guias de viagem e recursos locais
Deixe o levar consigo livros que descrevem o interior por onde viaja, os quais serão peça importante para suas perguntas e dúvidas. Deixe o também, conforme avança de um lugar para o outro, procurar recomendações com pessoas de qualidade que residem nos lugares por onde passa, que ele use de favores para se mostrar coisas que deseja ver e conhecer ao longo de sua estrada.

6. Procure por experiências variadas, mesmo que esteja num só lugar;
Não o deixe ficar por muito tempo numa só cidade ou vilarejo, mais ou menos o tempo que o lugar merece, mas não muito. Quando estiver numa cidade ou vilarejo, deixe-o se acomodar por alguns dias numa parte da cidade e mais outros em uma acomodação num outro lugar próximo à saída da cidade, só assim o viajante terá conhecido de forma espetacular o lugar e seu povo.

7. Procure por companhia que irá te desafiar;
Sequestre a si mesmo retirando-se da companhia de seus vizinhos, busque por dietas dos diferentes lugares em que passares onde exista boas nações. Cruze também as pontes do capitalismo e seus lucros. Busque conhecer e ser apresentado enquanto viaja para aqueles que podem de certa forma ajudar em seus custos, como secretários e funcionários de embaixadores, pessoas proeminentes e de nomes respeitados pela nação, daqueles que poderão te explicar como é a vida em um nível diferente do qual se vive.

8. Procure evitar viajar com pessoas que causam encrencas;
Para as brigas e encrencas, precisa ser tomadas com cuidado e discrição, geralmente se acontece com amantes, por dinheiro e palavras embriagadas, tome cuidado ao manter companhia com gente colérica e de temperamento, pois esses irão te trazer para dentro de seus problemas.

9. Quando voltar para casa, mantenha suas viagens vivas com um exercício intelectual;
Quando um viajante retorna à sua casa, ele não deve deixar os lugares pelos quais viajou para trás, mas sim manter contato por correspondência com aqueles que conheceu, aqueles que mais vale a pena, e deixe sua viagem aparecer mais em seu discurso do que em seus gestos.

10. Não se gabe de suas experiências de viagem ao retornar para casa;
Em seu discurso, deixe-o contar suas histórias ao invés de perguntar-lhe sobre tudo, deixe-o mostrar de que não mudou seus modos e os trocou pelos modos estrangeiros, tente absorver dele aquilo que ele tenta ensinar que veio aprendendo durante seu caminho nos países e lugares por onde passou.

Sir Francis Bacon   (22 January 1561 – 9 April 1626)
* tradução livre

Monday, 14 March 2011

To Everything There is a Season


To everything there is a season, and a time to every purpose under heaven:

A time to be born, and a time to die;
a time to plant, and a time to pluck up that which is planted;

A time to kill, and a time to heal;
a time to break down, and a time to build up;

A time to weep, and a time to laugh;
a time to mourn, and a time to dance;

A time to cast away stones, and a time to gather stones together;
a time to embrace, and a time to refrain from embracing;

A time to get, and a time to lose;
a time to keep, and a time to cast away;

A time to rend, and a time to sew;
a time to keep silence, and a time to speak;

A time to love, and a time to hate;
a time of war; and a time of peace."

Ecclesiastes 3:1-8

My time now is that of peace...
How about yours ?

Thursday, 3 March 2011

Carnaval sem culpa


"Tanto faz qual é a cor da sua blusa
Tanto faz a roupa que você usa
Faça calor ou faça frio
É sempre carnaval no Brasil"
Titãs, Nem cinco minutos guardados

Por isso e por outras é bom estar no Brasil.

Dizia Tom Jobim (fontes não confiáveis) de que "viver no exterior é bom mas é uma m%$^da, viver no Brasil é uma m%$^da mas é bom."
Sábias palavras meu bom Tom, se é que são suas e não invenção virtual, digo com propriedade que a frase tem um tanto de sentido, morar no exterior seria ótimo sabe como ? Com família, amigos, clima e caipirinha, somados ao bom salário, a certa estabilidade financeira, ao conforto, segurança de andar na rua e certeza de que nem tudo, mas a grande maioria das coisas funciona.

Sem a família lá fora, nós sentimos mais frio do que o inverno pode trazer, sem os amigos é difícil aquela cervejinha depois do expediente, sem o calor não tem como fazer farofa na praia, sem o jeitinho Brasileiro não existe piada nas filas de supermercado, não existe gozação na janela do ônibus, não se forma roda de viola, tampouco bailão sertanejo, se apoiar no balcão de um bar pra dividir uma cerveja e escutar uma história épica que daria um conto e um filme de duas horas então nem pensar amigão !

Quando se fala em Brasil lá fora, se responde Carnaval, samba, praia e muito sol, sim, é de praxe, é clichê, não se pode negar, não deixa de ter sua verdade, mas para o cidadão que tem sua pátria no coração e é inserido no contexto geral da nação, é fácil mostrar muito mais, mas pra isso é preciso um tanto de civilidade e força de vontade, não basta assistir telejornal e meter o pau naquilo que todo mundo faz, não pode ir com a onda e se deixar levar com a maré, precisa ser um pouco psicólogo, precisa ser um pouco analista da vida cotidiana, precisa sentir todas as camadas sociais, precisa trabalhar e estudar sem se deixar enganar pelos partidários e salafrários, precisa assistir menos Big Brother e ler mais, entender os motivos pelo qual se rouba aqui, pelo qual os impostos são altos, não basta culpar político, tem de saber história meu irmão !

Fácil também é dizer que o Brasil é a bola da vez, você sabe o motivo ? Muitos dirão que é pela Copa do mundo que vem aí, as Olimpíadas, ou talvez por causa da nossa Amazônia, nossa capacidade hidromineral, nossa mão de obra barata, nosso pré-sal e seus tambores de óleo que virão logo à seguir, mas não é só isso, tem também os profissionais de alto nível que estão se formando em nossa terra, enquanto alguns zé ninguém estão seguindo carreira fácil política e garantindo o seu, tem muito jovem por aí estudando e botando pra quebrar, eles são competitivos, são agressivos, confiáveis, inteligentes, falam línguas, enxergam o futuro e são bem sucedidos antes dos trinta anos de idade.

Podemos dizer que aconteceu também na Índia, na China, países gigantes que vieram de uns anos pra cá crescendo exponencialmente, com alguns diferenciais, dependentes de outros países, esses do 1o mundo, os quais quebraram todo o sistema financeiro mundial pela irresponsabilidade e ganância sem precedência na história. Não adiantou a Índia ter seus jovens intelectuais em ascensão trazendo excelência em softwares e engenharia, não adiantou a China ter seus jovens que não dormiam e trabalhavam horas a fio para sustentar uma demanda mundial dos bens de consumo, esses países desabaram juntos com os do 1o mundo, porém estão levando mais tempo para se recompor, enquanto no 1o mundo existe algo chamado recessão, onde as pessoas deixam de gastar "muito" para se manter, esses países que estavam em ascensão do dia para a noite deixaram de "ter" tudo, emprego, dinheiro e moradia.

Homens de negócio desses países do 1o mundo gostam do jeito Brasileiro de se fazer negócio. Como dito antes, temos uma grande parcela da população que é competente, que é letrada e com capacidade profissional além das expectativas, esses nossos profissionais não possuem diferenças culturais tão grandes como de certos países onde a religião está para o tratamento profissional como o sal está para o mar, está tudo misturado e influencia em decisões, assim como a cultura milenar de países asiáticos também trazem dificuldades, aqui é preto no branco, capitalismo selvagem, idéias inovadoras, criativas, soluções baratas para problemas caros, ajudamos a inventar o Facebook e o esquilo da Era do Gelo ! Esse meu amigo, é o Brasil que pouca gente conhece, um Brasil que não depende, se sustenta e que segura o reggae quando a coisa aperta.

Esse Brasil que pouca gente conhece é permeado por almas peregrinas, gente que nasceu aqui e que sempre volta, gente que tem atravessado esse mundo e não esquece seu país, gente que senta nos bares da vida e sorri lembrando do sol e da caipirinha, gente que volta e mostra para o que veio, se insere novamente na sociedade, muda as pessoas ao seu redor, já não reclama dos defeitos e preconceitos, somos essa gente que quando volta quer mesmo é ver o Carnaval de que tanto falam lá fora, que às vezes julgamos baixo e apelador, mas que é a maior festa do mundo, assim como outros países tem seus festivais e suas tradições, devemos sim mostrar nossa paixão por aquilo que somos famosos, a forma de festejar com samba no pé e drible nas canelas, Brasil não é só carnaval, samba e futebol, Brasil é país onipotente que sabe o que está fazendo, onde essa gente tabalhadora vem crescendo e precisa do Carnaval para expor sua história em samba-enredo.

Um bom carnaval meus amigos, estejam vocês onde estiverem.

Tuesday, 25 January 2011

Requiem for Amsterdam


Não devia tê-la deixado na esquina fria naquela manhã de primavera em Amsterdã.

Fugir com a francesa naquele dia me pareceu sóbrio e menos insólito que viver aquela fantasia, aquela ilusão montada num palco de um teatro sujo no lado velho da cidade.

Ela, à que deixei na esquina, dizia sonhar com o momento em que minhas canções nasceram, ela queria estar lá quando aconteceu, quem sabe quando acontecesse de novo, mas o coração se ocupou com outras coisas, e as mãos que traziam as canções para este mundo já estavam carinhando a face de outra.
Quantas manhãs como aquela se passaram por entre cobertores naquele prédio sombrio, manhãs que ambos olhavam pela janela abraçados debaixo de um cobertor empoeirado, com nossas xícaras de café olhando por através, vimos os holandeses passarem olhando para o chão, preocupados com suas vidas, na rota de sua prisão privada em busca de sua recompensa. Horas passávamos ali com nossos olhos vagando sem direção, pequenos detalhes, acompanhando pássaros pequenos que pousavam em nosso balcão, e depois de algum tempo, silêncioso tempo, abriamos nossos lábios primeiro para falar sobre as cores dos prédios no outro lado da rua, depois abriamos novamente para então depositar nossas línguas e entrelaçá-las num beijo.

A senhora da padaria na esquina já sabia de nossas escolhas, não que ela pudesse ler nossas mentes, mas talvez por que nos tornamos previsíveis, mesmo deixando os óculos escuros em casa e trocando meu chapéu de camurça não a enganava, éramos nós de novo. Aquele parque no caminho para casa, Vondelpark, era perfeito para gastarmos 3, às vezes 4 horas admirando a natureza, não só da vegetação, mas também a natureza humana, bem ali no centro da cidade, aquele lugar se transformou em uma usina de pessoas tentando descobrir o outro lado da moeda, procurando respostas em sua intoxicação do ser, rolando pela grama víamos desde pais e mães de família, escritores, compositores e todo tipo de gente, embriagados pela aura de Amsterdã.

Descíamos pela Van Baerlestraat em direção ao Museumplein, gastávamos mais alguns preciosos minutos observando turistas entrando e saindo dos museus, terminando o trajeto em algum café barato à beira do canal, trocávamos algumas palavras, tentávamos entrar em acordo em relação às cores dos prédios, deixávamos transparecer um pouco de nossa intelectualidade, e então, caíamos em nossa cama para morrer de amor e esperar pelo novo amanhecer.

Percebi que estava envelhecendo quando contei quantos batons dela eu havia estragado deixando mensagens no espelho do banheiro. No início era só prazer, as mensagens faziam com que o dia dela ficasse iluminado, uma vez que ela dizia eu ser a razão do sol em seu semblante, com o tempo, esses pequenos detalhes perderam seu valor, já não compravam desculpas por atraso, já não garantiam o calor debaixo daquele cobertor em frente da janela, até mesmo a xícara de café já não esquentava mais minhas mãos, e nosso respirar juntos já não embaçavam o vidro das manhãs frias.

A inocência se perdeu, o amor se esvaiu, ela se foi sem dali sair, só restou o corpo e aqueles olhos amendoados debaixo de olheiras escuras.
A francesa, nossa vizinha, era pintora assim como Van Gogh, dividíamos as mesmas intimidades, seus gritos de paixão vinham do alto de seu quarto ali do lado, acredito que o professor de piano, italiano, era sua razão. Não que ela tivesse um piano, não por assim dizer, das poucas vezes em que estive ali em assuntos corriqueiros não havia reparado, talvez por seus cachos de cabelos louros me tirarem toda a atenção, assim como seu sotaque delicado. Também vinham junto com essa intimidade os choros, aquele em que sabemos que a pessoa colocou um travesseiro em sua boca para abafar sua agonia.

Até o dia em que vinha cabisbaixo com uma flor em minha mão, pedido de desculpas em troca dos beijos de boa noite, e lá estava ela, a francesa em sua porta. Marie era seu nome, longos cabelos louros cacheados, olhos azuis como uma violeta iluminada em dia de lua cheia, aguados pelo choro, sua boca simples de lábios estreitos tremia de cansaço por tantas horas à fio em pranto, ao olhar a flor foi como se um imã a trouxesse até mim, colocou um de seus braços por sobre meu ombro, segurando me por trás de meu pescoço, próximo à nuca e com sua mão tocou meus lábios, já estavam entorpecidos pelo calor em que se encontravam por aquele momento.

Após poucos segundos que duraram uma eternidade, descobri minha alma dentro daquele corpo pálido e impecável, roubei um pouco de sua juventude e a levei de volta à seu quarto, à deixei com a promessa de voltar um dia, na realidade foram apenas minutos, voltei ao meu apartamento, ela não estava lá, suas roupas também não, apenas uma nota dizendo que estava à caminho de um novo mundo, talvez em busca de um novo amor, caso eu fosse um amor renovável, que eu me encontrasse com ela naquela esquina onde nos conhecemos dia desses, aquela que já esqueci o nome, onde nossas esperanças foram depositadas um no outro, e que como vampiros tiramos pouco à pouco, dia à dia, naqueles canais que Deus tocou e esqueceu por lá.

Achei um último batom em nosso banheiro, escrevi "te amei enquanto duramos, te terei em minha memória enquanto vivermos e além, Ik hou van jou".

Dessa vez ficou escrito em nossa janela, de frente para trás, caso ela viesse à espiar antes de partir. Juntei minhas poucas coisas em uma mala e uma mochila, guardei os imãs de geladeira em minha mochila, virei um porta-retratos de forma em que ela não me visse partir e fui em busca de Marie. Passamos à noite sem menção a Julie, Julie que um dia foi Julie e eu, hoje sou só eu, talvez amanhã Marie e eu, talvez só eu de novo, quem sabe ? Marie concordou em me levar para o sul da França, num pequeno tour pela região vinícola e da boemia Francesa.

Nossas mágoas foram esquecidas à longas doses de vinho, começamos vida nova sob o sol, corremos à colher flores pelos campos que botaram comida em nossa mesa, mas em alguns dias frios e de névoa, me vem a imagem de Julie naquela esquina, à esperar por alguém que já não era eu mesmo.



Wednesday, 12 January 2011

Memórias de um cárcere Vietnamita


Acordei numa prisão fétida no meio do nada, não era tão ruim quanto imaginava, creio por não estar tão cheia como as que costumei ver na tv em meu país. Pessoas me olhavam do outro lado do cômodo, hora com medo, hora em tom ameaçador. Já havia perdido a conta de quantos dias estava ali, poderia estar aproveitando as dunas lá fora, aquelas que um dia seguia passos de gente que haviam passado em direção ao mar, mar revolto e bonito que nunca imaginei ver daqueles lados e que vi de relance no caminho para a masmorra moderna.

Acendo um cigarro que teimo em tentar inalar e fazer todo o processo correto de fuma-traga-solta, mas me contento em mostrar aos colegas de cárcere apenas minha cara de mau, de alguém insano que poderia arrancar uma orelha numa mordida ou mesmo um nariz, capaz de tirar olhos com minhas próprias mãos, todo um teatro pra sobreviver nesse quarto privado da liberdade onde tanto acontece, em minúsculos cinco metros quadrados com sala, quarto, cozinha e banheiro incluso, e de graça... com tanta gente reclamando em pagar condomínio em seus luxuosos setenta metros quadrados nos quais convivem solitárias. Aqui não, compadre, aqui compartilhamos tudo. Alguns seringas, outros fotos de entes queridos, alguns poucos chegam até a trocar fluídos corporais e não é nada bonito tampouco convém, acredite.

A tremedeira de minhas mãos aumentam de acordo com os dias de insônia, passar a noite vigiando meu arredor virou rotina noturna, sonhos passam diante de meus olhos abertos, sonho com o sol ali naquelas dunas, logo ali, poucos metros depois do muro, pra lá do arame farpado, depois do poço fundo de água podre de esgoto e um pouco mais pra frente do canil onde deixam os cães que nos guardam.

Disseram tantas vezes que a cadeia era faculdade de ladrão e criminoso, o que será então dito dessa instituição no caso de um intercâmbio, onde ninguém fala minha língua, onde não entendo bulhufas do que falam, mesmo que grunhidos me soam, algum sentido deve ter, isso aprendi quando um dia depois de tanto gritarem algo incompreensível no corredor, sem respostas de lado algum, fui tomado de assalto e levei boas pancadas de um cabo de madeira na nuca, será que chamavam meu nome em mandarim ou japonês ? Será que ninguém os avisou de que pancada na nuca fica marca e aquele pessoal dos direitos humanos podem vir atrás em protesto ? Fiquei bem zonzo e mesmo assim não deixava de pensar em como explicar tudo isso para algum secretário da ONU... seria a ONU responsável por ouvir esse tipo de reclamação ? Talvez uma ONG qualquer, vai saber, vou ter que buscar nas páginas amarelas quando sair daqui, quero uns trocados como indenização.

Perdi a conta dos dias da semana, do mês, perdi a hora, senso de dia e noite, perdi a consciência algumas vezes fruto das pancadas dos carcereiros, hora pelas tragadas falhas no cigarro forte, hora por diretos de esquerda de um detento ex-pugilista, hora por intoxicação alimentar após ingerir aqueles purês amarelos os quais não temos a mínima idéia do que realmente são.

Estar inconsciente ajudou bastante no sentido de relaxar e dormir em paz, digamos que aquelas poucas horas de sono no chão do cárcere era praticamente um coma induzido, que vinha gratificante trazer paz aos meus dias, horas sem abrir os olhos, apenas deixando o tempo cicatrizar tantas marcas.

“Mama I just killed a man
Put a gun against his head
Pulled my trigger, now he's dead”

Não foi o caso, não matei ninguém, mas essa música não me saía da cabeça, deve ser pelo tratamento que nos dão em lugares remotos, independente do delito ou subversão, devemos todos ser tratados por igual, sem preconceito aqui amigo, todos tem o direito de ficar calado, levar a mesma quantidade de pancadas, ter os mesmos tipos de doenças e riscos de infecção generalizada, todos no mesmo nível, incrível, quem dera lá fora no mundo livre fosse assim também, igualdade para todos.

Um senhor jogado as traças em um dos cantos da cela tossia como alguém à tempos pêgo pela pneumonia, misturada em seu pulmão com fumaça de cigarro, mais o visgo que vem da parede onde ele devia ter sua face encostada pelos últimos quinze anos, aquela humidade devia estar encrustada até os ossos do pobre velho, digo pobre pois não sei ao certo o motivo dele estar ali, vai saber quantas crianças ele pode ter mandado mais cedo para o céu na época da guerra ?

Jong era o nome de um chinês que à cada meia hora vinha até mim e batia forte em seu peito magro repetindo seu nome seguido de “XAAAIIIINÁÁÁÁ”, acredito que ele dizia CHINA na pronúncia em inglês, e supus Jong ser seu nome, de qualquer maneira, comecei a chamá-lo de Jong, pra dizer a verdade, nunca o dirigi a palavra, mas em minhas notas mentais, ele era apenas o Jong chinês. Pequeno, sujo, fedor igual ao dos cachorros de rua após uma semana de chuva, seus dentes, os poucos que sobraram, era negros e encrustados como corais do fundo do mar, algo viscoso sempre aparecia em sua língua quando desenrolava à falar, os dentes que tinham melhor disposição lembravam cobre falso enferrujado, com certeza em sua juventude foi enganado e teve seus dentes reais trocados por “puro” ouro, ouro de tolo.

Depois de algum tempo, o qual já era inútil tentar lembrar que existia, alguém em farda verde e mal passada, com um revólver quase enferrujado e botões da camisa necessitando costura, vem até a grade da cela e aponta à minha pessoa, de início o mesmo sorriso de Jong, uma parafernália no lugar dos dentes que lembrava o motor de um Dodge esquecido por vinte anos na rua da casa onde cresci, depois uma expressão séria, a qual dizia claramente que eu estava enrascado.

Fez sinal com os dedos dizendo para me aproximar, abriu a cela com uma mão rápida e precisa enquanto a outra descansava no punho da arma, mesmo acreditando que aquele revólver da segunda guerra recém saído do fundo do mar não iria funcionar, resolvi obedecer, já pensava comigo que deviam ter contactado alguém da minha família do outro lado do mundo disposto à pagar pelo projétil que iria atravessar minha cabeça num muro dos fundos daquela prisão.

Fui levado até uma janela onde me passaram um livro mais antigo que a bíblia sagrada, ordenaram que eu seguisse a sequência de assinaturas na linha em branco abaixo do último infeliz que ali passou, devia por meu nome, assinar, data, local de origem e tive de copiar uns códigos que nem imagino para que serviam.

Terminado o processo, vieram com um saco plástico o qual continha uma mochila surrada com roupas sujas, uma bota mais gasta que a dos soldados no Afeganistão, uma carteira com algumas fotos 3x4 de familiares, amigos e recibos de ônibus, lanchonetes e supermercados, todos usados como agenda telefônica, telefones de mochileiros rabiscados em algum encontro surreal ao redor do mundo. Sem dinheiro, apenas lenço e documento.

Com alguns empurrões fui direcionado à porta da frente, mandam que eu caminhe até o portão principal, alguém aciona e vejo a rua logo ali a frente. Percebo uns urubus à me espreitar, eram na verdade os guardas nas torres de vigia acima do muro, apontando seus brinquedos enferrujados para minha cabeça, nem pense em fazer qualquer retaliação ou gesto obceno, muito perto da liberdade para ameaçar dessa forma. Saio do portão, olho dos dois lados da rua, atravesso, tiro a bota de meus pés, sigo descalço pelas dunas de Nha Trang, vejo o mar lá embaixo. Sento no topo daquela areia mais antiga que o tempo, deixo o corpo e a mente voar por sobre o mar, sem destino, enfim livre.